Em uma prova de velocidade que percorre centenas de quilômetros por estradas de terra e regiões remotas do país, manter competidores, equipes técnicas e organização conectados é parte da operação. 

Nesse contexto, tecnologia e conectividade passaram a ocupar um papel central para garantir comunicação, segurança, monitoramento e apuração dos resultados do Rally dos Sertões, que chega à 34ª edição em 2026. 

No Futurecom 2026, a competição foi apresentada como um exemplo de aplicação de conectividade em ambientes remotos. 

Tecnologia onde a infraestrutura convencional não chega 

A diferença em relação a competições realizadas em circuitos fechados começa pelo próprio território. “Os Sertões acontecem no Brasil profundo, em locais inóspitos”, afirmou Leonora Guedes, CEO do Rally dos Sertões, durante palestra no Futurecom Leaders Congress. 

A operação envolve deslocamentos de centenas de quilômetros por dia e exige uma estrutura de comunicação capaz de acompanhar os competidores em áreas onde as redes tradicionais de telecomunicações não estão disponíveis. 

Segundo Leonora, a tecnologia é hoje parte essencial da estrutura que viabiliza a competição. “Tudo que a gente traz hoje de tecnologia é principalmente para oferecer segurança”, disse.  

Do avião repetidor às antenas satelitais 

A evolução da conectividade pode ser medida pela própria mudança na estrutura de comunicação da prova. Durante anos, dois aviões sobrevoavam o percurso continuamente para funcionar como repetidores de sinal para os rádios VHF utilizados pelas equipes técnicas. 

“Até pouco tempo atrás, a gente precisava de um avião sobrevoando para ser repetidor. Eu falava: o carro 55 passou do quilômetro 35. O avião era o repetidor”, conta Leonora. 

Hoje, aproximadamente 70 veículos da equipe técnica contam com antenas satélites, o que permite manter a comunicação independentemente da localização. Com isso, a dependência da estrutura aérea diminuiu. Um único avião permanece no percurso como backup, caso os equipamentos apresentem alguma falha. 

A mudança também alterou a dinâmica de resposta em emergências. O sistema permite que a organização acompanhe os competidores e receba informações diretamente dos veículos, reduzindo o intervalo entre a identificação de um problema e o acionamento da equipe de apoio. 

Para Daniel Spolidorio, cofundador, diretor e navegador da QI Racing, a evolução é perceptível na própria experiência de quem está dentro do veículo.  

“A informação antigamente era passada pelo rádio, pelo avião. Hoje é pelo equipamento, então é quase um WhatsApp. Mais agilidade e segurança”, pontuou Spolidorio. 

GPS de precisão leva dados para a operação em tempo real 

A conectividade via satélite é combinada a sistemas de GPS e radiofrequência que permitem acompanhar a posição dos competidores e registrar dados da prova. 

Spolidorio explicou que o equipamento utilizado pelos competidores trabalha com GPS de precisão, com erro inferior a um metro, além de conexão com um. A organização, por sua vez, consegue acompanhar os competidores em tempo real. O sistema também mantém comunicação com a organização e permite o acionamento de um botão de SOS. 

A comunicação pode ser usada tanto em emergências quanto em problemas mecânicos. “Eventualmente parei, tive uma quebra. Consigo enviar as informações para a organização: ‘carro 02 foi parado no quilômetro 320, falha mecânica’”, explicou. 

De acordo com Spolidorio, a informação chega à organização em cerca de 25 segundos. A partir da coordenada geográfica, a equipe de apoio consegue identificar a localização do competidor e direcionar o atendimento. 

O mesmo conjunto de dados também tem impacto sobre a própria competição. Informações de tempo, localização e velocidade são registradas pelos equipamentos e integradas à apuração, permitindo calcular penalizações e resultados com mais agilidade. 

“Como nós temos tudo integrado, sofro uma penalização e já recebo essa informação no final do jogo. Algo que antigamente era registrado no computador, horas depois”, compara. 

Radiofrequência também atua nas ultrapassagens 

A tecnologia não está restrita ao rastreamento. Em uma prova realizada em estradas estreitas e com muita poeira, as ultrapassagens também exigem mecanismos específicos de comunicação. 

O sistema utiliza radiofrequência para identificar o competidor que está se aproximando e transmitir ao veículo à frente a solicitação de ultrapassagem. O equipamento faz a leitura do competidor a uma distância de aproximadamente 600 metros e aciona o aviso conforme as regras da prova. 

A solução ganhou relevância justamente pelas características das estradas brasileiras, onde a poeira e a pouca disponibilidade de espaço podem dificultar a visibilidade. 

“Hoje nós temos um motor de ultrapassagem, tem as regras, basicamente 600 metros para frente. Esse equipamento faz a leitura”, explica Spolidorio. 

Para ele, a tecnologia trouxe uma mudança importante em relação aos primeiros anos de competição. “Funcionava, mas não tinha a segurança que tem hoje.” 

Satélite amplia a conectividade e reduz etapas da operação 

A tecnologia também alterou etapas anteriores à realização da prova. Segundo os participantes, imagens de satélite e informações geográficas passaram a apoiar o planejamento dos trajetos, reduzindo a necessidade de levantamentos presenciais e sobrevoos utilizados no passado. 

Essa infraestrutura ganhou uma nova camada com a adoção da Starlink nos veículos da organização. Segundo Leonora, os carros responsáveis pelo fechamento das estradas utilizam a conexão há cerca de dois anos, permitindo comunicação entre as equipes. 

A conectividade também passou a ampliar a capacidade de transmissão de conteúdo durante a competição. “O advento da internet trouxe inclusive mais visibilidade para o esporte”, destacou Leonora. 

A mudança mostra como uma tecnologia originalmente associada à conexão de áreas remotas pode assumir diferentes funções dentro de uma operação: comunicação entre equipes, monitoramento, transmissão e suporte à segurança. 

Rally também funciona como plataforma de testes 

Além de sustentar a operação da prova, o ambiente extremo dos Sertões também é utilizado por empresas para testar produtos e tecnologias em condições de alta exigência. 

Leonora contou que muitas marcas utilizam a competição como plataforma de testes para avaliar atributos como durabilidade e resistência. “Se nos Sertões ela funciona, dá certo. É algo que tem uma chancela de qualidade”, afirmou. 

O uso do evento como ambiente de validação está relacionado às próprias características da competição: grandes distâncias, terrenos variados, poeira, vibração, altas velocidades e operação longe dos centros urbanos. 

Para o setor de tecnologia e telecomunicações, o caso evidencia uma demanda específica: soluções capazes de manter conectividade e disponibilidade de dados em ambientes nos quais a infraestrutura convencional é limitada ou inexistente. 

Ao mesmo tempo, a tecnologia não elimina a necessidade de estrutura física. O Rally dos Sertões mantém cerca de 120 pessoas em campo para operações como controle de acessos e fechamento de estradas. A conectividade, nesse contexto, funciona integrada à infraestrutura humana e logística que sustenta a competição. 

A experiência dos Sertões demonstra uma aplicação concreta de tecnologias de comunicação em um cenário de alta complexidade operacional. Em áreas onde a rede terrestre não acompanha o deslocamento da operação, satélite, GPS e radiofrequência deixam de ser apenas recursos complementares e passam a fazer parte da própria estrutura de segurança e gestão da prova. 

Acompanhe a cobertura completa do evento em Futurecom Digital.