O uso da inteligência artificial na educação brasileira já é realidade. Dados apresentados no Futurecom Leaders Congress 2026 revelam que 37% dos alunos utilizam IA em atividades escolares, número que salta para 70% no ensino médio. 

O desafio agora é garantir que essa adoção aconteça com segurança, ética e responsabilidade compartilhada. O painel “Aplicações de IA em educação e proteção de crianças” trouxe especialistas para discutir esses tópicos, acompanhe a seguir. 

Crianças conectadas: como usar IA na educação?

Milton Kashiwakura, diretor de projetos especiais do NIC.br, trouxe números da pesquisa TIC Kids Online: 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos são usuários de internet, e 28% têm contato com a internet antes dos 6 anos de idade. Em 2015, esse último índice era apenas 10%. 

“A proteção digital não é um risco futuro, faz parte da proteção da infância e adolescência hoje”, alertou Milton. O celular é o dispositivo predominante, usado por 96% dos jovens internautas. 

IA também está na rotina de professores 

A inteligência artificial chegou às salas de aula, mas a formação crítica não acompanhou o ritmo. Segundo dados apresentados, 43% dos professores já adotam IA na elaboração de atividades pedagógicas. Porém, existe uma lacuna. 

“Apenas 19% dos alunos disseram que os professores conversam sobre como utilizar IA”, apontou Milton. E mais: apenas 33% foram ensinados a verificar quando a IA gera conteúdos com erros, informações falsas ou preconceituosas. 

Ana Ligia Scachetti, CEO da Associação Nova Escola e mediadora do painel, destacou que a organização apoia professores de escolas públicas justamente para enfrentar esses desafios. A Nova Escola usa IA para apoiar educadores na geração de planos de aula e na compreensão de dados de avaliação. 

Responsabilidade compartilhada na proteção digital 

Para os especialistas, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital não pode recair apenas sobre as famílias. “A responsabilidade tem que ser compartilhada – família, escola, poder público e plataformas”, enfatizou Milton. 

Dorian Lacerda, Diretor da ABRANET, reforçou essa visão. “A tecnologia é uma ferramenta, é um meio. São as pessoas que fazem as escolhas”, afirmou. Para ele, é fundamental ampliar a discussão sobre educação digital e uso da IA em diferentes camadas da sociedade. 

Lacerda destacou ainda a transformação na maneira de aprender e ensinar. “Olhar para o futuro exige critérios humanos para formação”, disse, lembrando que a inteligência artificial é apenas uma amplificação das capacidades humanas. 

Letramento digital é a chave 

A palavra de ordem entre os painelistas foi “letramento digital”. Milton Kashiwakura foi direto: “Proibir [celulares, redes sociais e jogos eletrônicos] não resolve. O caminho é o letramento digital, como fazer uso de forma correta e mais segura”. 

Guilherme Skaf Amorim, Diretor de Corporate Venture Capital do Grupo Marista, concordou. “Proibir gera a curiosidade. O nome do jogo é a parcimônia, saber desmistificar e dar limites para tornar saudável, e manter uma certa vigília”, explicou. 

O Grupo Marista, que reúne 97 escolas pelo Brasil, além da FTD Editora, universidades e hospitais, investe em soluções tecnológicas para diferentes demandas educacionais. Um exemplo é a parceria com a startup Jovens Gênios, que oferece conteúdo gamificado personalizado para crianças com neurodivergência. 

Inovação, proteção e acesso 

Guilherme reconheceu que não existe resposta pronta no mercado. “Levar valor com IA é o desafio. Estamos falando de macrotendências para 2040, mas o momento atual exige foco no letramento”, afirmou. 

A governança institucional ainda é incipiente, segundo os dados apresentados. As escolas precisam desenvolver políticas claras sobre o uso de IA, sempre priorizando a proteção dos estudantes. 

Milton também chamou atenção para o gap tecnológico. “A escola é uma maneira para que as crianças tenham acesso com infraestrutura correta”, disse, destacando a importância de viabilizar conectividade para todos. 

Futuro da educação 

Os painelistas concordaram que a IA veio para ficar na educação. O desafio é garantir que seu uso seja ético, seguro e inclusivo. Isso exige ação conjunta de famílias, escolas, governo e plataformas digitais. 

“Não podemos reduzir o debate de IA na educação apenas à eficiência ou personalização”, alertou o representante do NIB.br. “É preciso reconhecer o potencial para ampliar acessibilidade, apoiar professores e favorecer inclusão, sempre com adequação”. 

A tecnologia avança rapidamente, mas são os valores humanos que devem guiar seu uso na formação das novas gerações.