As constelações de baixa órbita, a integração com redes móveis e novas aplicações corporativas estão transformando o papel dos satélites na conectividade brasileira. Se antes essas soluções eram utilizadas principalmente para alcançar locais sem infraestrutura terrestre, hoje também ganham espaço em operações móveis, redes críticas, mineração, agronegócio e como alternativa de redundância.

Para a presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Telecomunicações por Satélite (Sindisat), Michelle Caldeira, o avanço das constelações não geoestacionárias, especialmente em órbita baixa (LEO), a evolução dos satélites geoestacionários de alta capacidade e o desenvolvimento das redes não terrestres (NTN) estão ampliando as possibilidades de conectividade e permitindo oferecer soluções mais eficientes e adaptadas às necessidades de cada aplicação.

Segundo Michelle, as soluções multi-órbita são um bom exemplo dessa evolução. “A combinação das capacidades dos satélites GEO, MEO e LEO permite oferecer maior cobertura, menor latência, mais capacidade e resiliência, aproveitando as características de cada sistema. Além disso, a integração cada vez maior entre redes terrestres e não terrestres, incluindo a conectividade direta entre satélites e dispositivos móveis (D2D), abre novas possibilidades para ampliar a cobertura e complementar a infraestrutura de telecomunicações existente”, explica.

O vice-presidente de Vendas para a América Latina da Venn Telecom e executivo com experiência em conectividade e soluções satelitais, Jayme Ribeiro, complementa que a expansão da fibra óptica e dos provedores regionais também alterou o espaço ocupado pelas tecnologias de satélite no mercado brasileiro.

Grandes redes de varejo, por exemplo, chegaram a utilizar satélites GEO como conexão principal ou de contingência em locais onde as redes terrestres não chegavam. Com o aumento da capilaridade da banda larga fixa, parte dessas aplicações migrou para conexões terrestres.

Ao mesmo tempo, a baixa órbita abriu possibilidades que antes eram difíceis de viabilizar.

LEO amplia aplicações em movimento

Segundo Ribeiro, a combinação de baixa latência, maior velocidade, mobilidade e redução de custos tornou as constelações LEO adequadas para aplicações em carros, veículos pesados e embarcações.

“Hoje um caminhão gigante de mineração pode ser operado a centenas ou milhares de quilômetros de distância via satélite, sem motorista a bordo”, exemplifica.

A tecnologia também passou a ser utilizada como conexão de contingência em operações nas quais uma interrupção pode gerar perdas financeiras imediatas, como centros de distribuição de comércio eletrônico.

Nesse cenário, as diferentes órbitas tendem a assumir funções distintas. Ribeiro avalia que o GEO permanece relevante em aplicações como transmissão de vídeo e troncos de alta capacidade, embora tenha perdido espaço no tráfego de dados. Já o MEO continua presente em conexões de maior capacidade e pode ampliar sua competição com soluções LEO à medida que novas ofertas chegam ao mercado.

Mais do que uma substituição direta entre tecnologias, o cenário aponta para uma combinação de arquiteturas conforme requisitos de latência, capacidade, cobertura, mobilidade e custo.

A visão da Eutelsat para o Brasil

O Brasil enfrenta desafios únicos de conectividade, com demandas que vão desde escolas e comunidades em áreas remotas até plataformas offshore e aeronaves. O diretor-geral da Eutelsat Brasil , operadora global de comunicações por satélite, Rodrigo Campos, explica que atualmente operam tanto uma frota geoestacionária quanto uma constelação totalmente operacional em órbita baixa chamada OneWeb.

“O GEO oferece throughput elevado e ampla cobertura para radiodifusão, banda larga e backhaul celular, enquanto o LEO adiciona altas velocidades e baixa latência, ideais para serviços interativos, aplicações em nuvem e operações em locais remotos”, explica Campos.

O gestor ressalta ainda que a integração entre essas tecnologias permite atender demandas específicas de setores como aviação, onde a combinação de GEO e LEO garante conectividade confiável durante todo o voo. “No Brasil, vejo um potencial particularmente forte na expansão das redes móveis e na conexão de indústrias como mineração, transporte e energia, onde comunicações confiáveis são essenciais e as operações muitas vezes estão distantes da infraestrutura terrestre”, destaca.

Além disso, Campos explica que a Eutelsat enxerga oportunidades para conectar escolas, comunidades e serviços governamentais, ampliando o alcance e a resiliência da conectividade, especialmente em situações de emergência ou como backup para infraestrutura crítica.

Backhaul pode levar redes móveis para áreas remotas

Outra frente de expansão é o uso do satélite como backhaul, conectando uma estação rádio-base à infraestrutura principal da operadora em regiões onde não existe fibra disponível.

Ribeiro considera grande o potencial desse modelo, especialmente em áreas rurais, rodovias e localidades de difícil acesso. Ele cita aplicações de LTE no agronegócio e redes móveis privadas de mineradoras que utilizam conexão satelital como infraestrutura de transporte.

O desafio está em transformar esse potencial em um modelo economicamente sustentável para as operadoras.

“A operadora precisa investir na estação rádio-base em um local de baixa densidade, pagar por uma conexão satelital que é, sem dúvida, mais cara que fibra, e no final cobrar o mesmo preço pelo plano de uma cidade bem povoada e com abundância de fibra”, explica.

Por isso, Ribeiro avalia que o satélite é apenas uma parte da equação. “É preciso que a conta feche para as operadoras irem além das obrigações da Anatel.”

A questão econômica ajuda a explicar por que a possibilidade técnica de cobertura não significa, necessariamente, expansão imediata das redes. Além do link satelital, é necessário considerar equipamentos, energia, manutenção e volume de usuários atendidos.

O diretor-geral da Eutelsat Brasil, Rodrigo Campos, enfatiza que a parceria é um elemento essencial para as operadoras. “Trabalhamos por meio de parceiros de distribuição, como operadoras de telecomunicações, provedores de internet e provedores de serviços via satélite, que integram nossa conectividade GEO e OneWeb LEO aos serviços que oferecem aos seus clientes”, explica Campos. Ele destaca que o backhaul via satélite permite que esses parceiros ampliem suas redes, conectando locais remotos ou redes locais de banda larga à infraestrutura de core.

“No Brasil, onde a distância e o terreno podem dificultar a implantação de fibra, o satélite pode ser fundamental para ajudar as operadoras a alcançar comunidades e empresas que, de outra forma, permaneceriam desconectadas ou mal atendidas”, afirma Campos. Segundo ele, a conectividade via satélite se torna parte central da rede, ampliando a cobertura e complementando a infraestrutura terrestre.

“O satélite pode fornecer uma conexão alternativa quando os links terrestres forem interrompidos, adicionando resiliência à rede”, destaca.

NTN aproxima satélite da telefonia móvel

Se o backhaul utiliza o satélite para conectar a infraestrutura da operadora, as redes NTN (Non-Terrestrial Networks) ampliam a integração diretamente com os dispositivos.

A padronização promovida pelo 3GPP a partir do Release 17 foi um dos passos para esse avanço. Ribeiro, porém, destaca que o desenvolvimento das redes não terrestres depende também de fatores comerciais e regulatórios.

O espectro aparece como um dos principais elementos dessa equação. Operadoras de satélite precisam trabalhar em conjunto com empresas de telefonia móvel para utilizar frequências já destinadas aos serviços celulares.

No Brasil, Ribeiro destaca que esse processo começou a ganhar forma com a destinação de faixas para serviços móveis por satélite e com testes de soluções Direct to Cell. Nesse modelo, a atuação das empresas de satélite ocorre em parceria com a operadora que detém o direito de uso do espectro.

Hoje, segundo o executivo, as primeiras aplicações D2D ainda estão concentradas em recursos como mensagens, localização e comunicações de emergência. O próximo passo será ampliar capacidade para voz e transmissão de dados.

“Nos próximos anos a tecnologia vai evoluir para voz, dados e velocidades maiores, até se confundir com a rede terrestre — o usuário não vai mais saber por qual rede seus dados estão trafegando”, afirma.

Agro pode ser um dos beneficiados

A integração entre redes terrestres e satelitais também pode aumentar a quantidade de dispositivos conectados longe dos grandes centros urbanos.

Para Ribeiro, o agronegócio é um dos setores com maior potencial de transformação.

“Vejo uma revolução no agro com esse tipo de comunicação: todo sensor poderá estar on-line enviando dados em tempo real, sem gateway dedicado. Telemetria de tudo, o tempo todo”, afirma.

Essa capacidade poderia ampliar aplicações de Internet das Coisas em propriedades nas quais a cobertura terrestre ainda é limitada. Sensores de máquinas, clima, solo, armazenamento, irrigação e rastreamento de ativos poderiam depender menos da instalação de infraestrutura intermediária.

O mesmo princípio vale para mineração, setor florestal, rodovias e outras operações distribuídas por grandes territórios.

Concorrência pode acelerar universalização

A conectividade satelital também ganhou escala entre consumidores nos últimos anos. Ribeiro aponta a chegada de novas constelações como uma mudança significativa para um país de dimensões continentais como o Brasil.

Segundo os números citados pelo executivo, o país tinha cerca de 350 mil acessos de banda larga via satélite no início de 2022. O mercado teria posteriormente crescido para aproximadamente 913 mil acessos, acompanhado de maior participação das soluções LEO.

Para ele, porém, a próxima etapa de expansão dependerá principalmente de concorrência. “Na minha visão, o que falta para essa universalização destravar de vez é concorrência. Concorrência faz muito bem ao mercado”, afirma.

Ribeiro cita a entrada de novas constelações como um fator capaz de estimular outros modelos de negócio, terminais e formas de comercialização. A expectativa é que a disputa amplie opções para consumidores e empresas e reduza a dependência de um único fornecedor em determinadas aplicações.

Satélites e conectividade: desafios regulatórios e sustentabilidade espacial no Brasil

Michelle, representante do Sindisat, destaca que o principal obstáculo está na adaptação das políticas públicas e do ambiente regulatório à evolução tecnológica.

“Há ainda uma percepção de que o satélite é uma solução complementar ou temporária, utilizada apenas quando não há outra alternativa. Precisamos superar essa visão. O satélite deve ser reconhecido como parte permanente da infraestrutura nacional de conectividade, especialmente em um país com as características geográficas e os desafios de infraestrutura que temos no Brasil”, afirma Michelle.

Ela ressalta que as tecnologias de fibra óptica, redes móveis e sistemas satelitais possuem características distintas e complementares. “Não se trata de escolher uma tecnologia em detrimento de outra, mas de identificar a solução mais adequada para cada realidade, considerando aspectos como custo, prazo de implantação, qualidade do serviço e viabilidade econômica”, explica.

Nesse sentido, Michelle defende políticas públicas tecnologicamente neutras, que permitam aproveitar as capacidades de todas as tecnologias disponíveis. “Essa discussão é particularmente importante no contexto do Plano Nacional de Inclusão Digital (PNID). Precisamos evitar que as políticas de conectividade sejam construídas a partir de uma preferência por determinada tecnologia, sem considerar as necessidades específicas de cada região”, alerta.

Do ponto de vista regulatório, ela destaca a importância de garantir previsibilidade, segurança jurídica e condições adequadas de acesso ao espectro. “É essencial evitar a criação de obrigações desproporcionais que possam dificultar a implantação de novas soluções satelitais e comprometer os investimentos no setor”, afirma.

Michelle também aponta a necessidade de maior incentivo ao uso de satélites nas políticas públicas de conectividade. “Em muitas regiões do país, especialmente nas áreas rurais e remotas, o satélite permite levar conectividade com rapidez e eficiência, sem depender da implantação de uma infraestrutura terrestre extensa e de alto custo”, explica.

Para o Sindisat, a inclusão digital deve ser orientada pelas necessidades da população e não pela preferência por uma determinada tecnologia. “Precisamos fortalecer o diálogo entre governo, Anatel e indústria, de forma a construir políticas públicas que reconheçam o papel do setor satelital e permitam ampliar a conectividade de forma sustentável e competitiva”, conclui.

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