A expansão acelerada da inteligência artificial está criando um desafio que vai muito além de processadores, GPUs e capacidade computacional. À medida que novas aplicações aumentam a demanda por processamento, a infraestrutura elétrica dos data centers passa a ocupar posição estratégica na expansão do mercado.

No Futurecom 2026, Marco Aurélio Munhoz, head Telecom e Datacenter da Megmeet, pontuou que o desafio não está apenas em disponibilizar energia, mas em garantir que ela seja entregue de forma confiável, eficiente e sustentável.

“Não está em entregar a energia, mas é importante saber como essa energia está sendo entregue”, afirmou durante palestra sobre a infraestrutura necessária para sustentar a evolução da inteligência artificial (IA) na arena Future Talks.

A questão ganha dimensão diante do crescimento projetado para o consumo dos data centers. O consumo desses ambientes chegaria a cerca de 485 TWh em 2025 e poderia praticamente dobrar até 2030, impulsionado principalmente pela IA, de acordo com dados apresentados da Agência Internacional de Energia.

De servidores a megawatts por rack

A transformação não ocorre apenas na escala dos data centers. A própria arquitetura interna desses ambientes está mudando.

Munhoz destacou que, anteriormente, racks operavam com demandas de energia na faixa de 10 kWh a 15 kWh e passam a enfrentar uma multiplicação significativa da potência necessária. A projeção apresentada é de que a demanda possa chegar a 1 MW por rack em determinadas aplicações de IA.

A mudança altera as premissas de engenharia e infraestrutura dos data centers. Mais potência significa também novos desafios para distribuição elétrica, barramentos, cabeamento, refrigeração e investimentos.

“Estamos mudando a escala da física internamente no data center”, resumiu Munhoz.

O ponto é relevante para um mercado no qual a capacidade de expansão computacional pode deixar de ser determinada apenas pela disponibilidade de servidores e passar a depender também da capacidade de conexão e fornecimento de energia.

Eficiência passa a ser parte da capacidade computacional

A discussão sobre eficiência energética deixa de ser apenas ambiental ou operacional e passa a ter impacto direto sobre a capacidade de processamento que um data center consegue entregar.

Uma das arquiteturas em desenvolvimento, segundo o executivo, é o uso de 800 VDC, que busca trabalhar com tensão mais elevada e corrente menor na distribuição de energia. De acordo com os dados apresentados, estudos associados à NVIDIA apontam potencial de redução de aproximadamente 45% na utilização de cobre e ganho de 5% em eficiência energética.

A lógica é reduzir perdas ao longo do processo de conversão e distribuição. Em instalações de grande escala, mesmo pequenos ganhos percentuais podem representar volumes relevantes de energia que deixam de ser dissipados e, consequentemente, menor pressão sobre sistemas de refrigeração.

A arquitetura, no entanto, ainda não é apresentada como uma solução definitiva. “Não é uma solução única. É uma peça da solução para esse problema da IA data center”, explicou Munhoz.

Além da distribuição em corrente contínua, o mercado também busca elevar a eficiência dos retificadores. A referência apresentada durante a palestra é de aproximadamente 98% como objetivo de eficiência para esses equipamentos.

Baterias deixam de ser apenas backup

Outro componente que ganha relevância é o armazenamento de energia.

O BESS (Battery Energy Storage System), tradicionalmente associado ao armazenamento e à continuidade do fornecimento, passa a ser apresentado também como elemento de estabilização da rede diante das oscilações provocadas pela demanda variável das cargas de IA.

A característica dos workloads de inteligência artificial é justamente um dos desafios. A demanda energética pode variar de acordo com os fluxos de processamento, exigindo uma infraestrutura capaz de responder às oscilações sem comprometer a estabilidade da operação.

Para operadores de data centers, portanto, a discussão passa a envolver um ecossistema que combina rede elétrica, fontes renováveis, armazenamento, conversão e distribuição de energia.

Brasil pode ter matriz renovável como vantagem competitiva

É nesse ponto que o Brasil aparece como um mercado potencialmente estratégico.

O país conta com uma matriz elétrica diversificada, a partir de fontes hídrica, solar e eólica. Para Munhoz, essa característica cria uma oportunidade para que o Brasil se posicione na expansão da infraestrutura necessária à IA, combinando disponibilidade de energia renovável, armazenamento e soluções de eficiência.

A vantagem, entretanto, não dependeria apenas da disponibilidade física de energia. O avanço dos data centers exige coordenação entre diferentes agentes, incluindo empresas de energia, setor de tecnologia, telecomunicações e órgãos reguladores.

A discussão coloca a infraestrutura energética como um dos elementos que podem determinar a capacidade de o país capturar investimentos relacionados à inteligência artificial.

O desafio extrapola o data center

Embora a palestra tenha focado na infraestrutura elétrica dos data centers, o impacto da expansão da IA também alcança as redes de telecomunicações.

O aumento do processamento e das aplicações de IA tende a ampliar a demanda por conectividade, backhaul e atendimento aos assinantes. Na avaliação apresentada, esse movimento coloca também operadoras móveis e provedores de internet diante de novos desafios de infraestrutura.

A consequência é que a corrida pela IA não deve ser analisada apenas pela perspectiva dos modelos e aplicações. Ela envolve uma cadeia de infraestrutura que começa na geração e distribuição de energia, passa pelos data centers e sistemas de processamento e chega às redes responsáveis por transportar os dados até empresas e usuários.

No limite, a capacidade de transformar energia em processamento pode se tornar um dos fatores estratégicos da economia digital.

“A energia elétrica vai ser um ponto extremamente importante e diferencial para IA”, concluiu.