Reunindo representantes do governo, do legislativo e do setor privado, o painel “Brasil Digital” que aconteceu no Leaders Congress, durante o primeiro dia do Futurecom 2026, debateu os rumos da conectividade e as estratégias para superar o histórico atraso de produtividade do país, que atualmente gera apenas 22,6 dólares por hora trabalhada.

Durante o encontro, o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, o deputado federal José Lino Filho e especialistas do setor priviado destacaram avanços em políticas públicas e a urgência de destravar marcos regulatórios, como o uso de postes de energia e a regulamentação do armazenamento de dados (Redato), para garantir a segurança jurídica necessária aos investimentos em infraestrutura digital.

A sócia da Ecoa Consultoria Econômica, Cláudia Viegas, destacou que o setor de telecomunicações e tecnologia no Brasil movimenta mais de R$ 20 bilhões em ICMS anualmente, gera 2,7 milhões de empregos diretos e oferece salários médios 55% superiores à média nacional.

Além disso, a reforçou que a digitalização tem impulsionado a inclusão financeira e a formalização de microempreendimentos, com o Pix desempenhando um papel estratégico ao formalizar mais de 800 mil microempresas entre 2022 e 2024, gerando R$ 46 bilhões em renda e R$ 706 milhões em arrecadação tributária.

Diante desses números, Claudia alertou que o país ainda enfrenta um grave problema de produtividade. Enquanto uma hora trabalhada no Brasil gera o equivalente a 22,6 dólares americanos, nos Estados Unidos esse valor chega a quase 100 dólares. Na América Latina, o Brasil fica atrás de países como Argentina (35,7 dólares) e México (36,1 dólares).

“A gente agora precisa ter ganhos de qualidade nessa produção para ter salto de produtividade e conseguir recuperar o tempo perdido. E são 11 anos perdidos”, afirmou Viegas.

Políticas Públicas e Inclusão Digital

O Ministro de Estado das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, detalhou as ações governamentais para expandir a infraestrutura digital nas regiões mais isoladas do país. Entre as principais iniciativas está a Estratégia Nacional das Escolas Conectadas, que já levou internet a cerca de 109 mil escolas públicas. “Até o final do ano, a meta é alcançar 2.220 municípios com cobertura 5G e implantar a tecnologia 4G em 1.500 localidades rurais”, informou.

De acordo com o ministro, o governo também trabalha no Plano Nacional de Inclusão Digital para conectar Unidades Básicas de Saúde (UBS), viabilizando a telessaúde e a telemedicina — que, segundo dados do setor, reduzem em média 39,5 mil internações evitáveis por ano no SUS, gerando uma economia de R$ 110 milhões.

“A gente defende que colocar mais tecnologia a extensão das pessoas, melhora a qualidade da gestão, melhora a qualidade do serviço público digital”, acrescentou o ministro.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos, como a baixa produtividade em comparação a outros países da América Latina e a necessidade de expandir a infraestrutura digital. Dados apresentados no painel indicam que 54% das rodovias federais e 30% das escolas ainda não possuem cobertura adequada, evidenciando a urgência de investimentos em conectividade.

Diante dessa realidade, o ex-ministro e deputado federal José Juscelino Filho reforçou o papel estratégico do Congresso Nacional na criação de um ambiente regulatório favorável para investimentos e inovação tecnológica.

Ele mencionou projetos como o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que tem financiado a expansão da infraestrutura digital em áreas menos favorecidas, e a regulamentação do uso de postes para telecomunicações, essencial para fortalecer a conectividade no país. “A segurança jurídica e o estímulo aos investimentos são fundamentais para que o Brasil avance na agenda digital e se torne um player global em armazenamento de dados e inteligência artificial”, afirmou Juscelino.

O deputado também destacou a atuação da Frente Parlamentar Mista de Telecomunicações e Soluções Digitais, que reúne especialistas e parlamentares para propor novas legislações e acompanhar temas relevantes em tramitação. Segundo ele, essa frente busca fortalecer a sinergia entre o poder executivo, o setor privado e a agência reguladora, garantindo que o Brasil avance de forma integrada na transformação digital.

Com esforços conjuntos entre governo, iniciativa privada e legislativo, o Brasil tem a oportunidade de superar barreiras históricas e se consolidar como uma referência global em conectividade e tecnologia. “A conectividade é uma ferramenta essencial para reduzir desigualdades regionais, promover o desenvolvimento econômico sustentável e impactar positivamente a vida de milhões de brasileiros”, enfatizou Filho.

A necessidade de uma cultura de inovação

Olavo Nóbrega, presidente da ABDI (Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial), trouxe uma comparação preocupante sobre a automação industrial: enquanto a China possui 500 robôs em operação para cada 10.000 trabalhadores, o Brasil conta com apenas 10 robôs para o mesmo grupo de funcionários.

Embora existam recursos disponíveis — como R$ 40 bilhões da Finep para inovação e R$ 800 bilhões no plano “Mais Produção” do BNDES —, Olavo argumentou que as empresas brasileiras precisam superar a resistência em investir em tecnologia própria e parar de apenas copiar modelos estrangeiros.

“Nós precisamos, portanto, fortalecer essa cultura de inovação. Inovação no Brasil não compõe a nossa cultura. A empresa acha caro. É mais fácil copiar modelos, é mais fácil comprar funções prontas. Isso é um tiro no pé para quem quer disputar a liderança”, criticou Olavo Nóbrega.

Os especialistas destacaram a importância do letramento digital e da conscientização sobre os benefícios da tecnologia, que vão muito além dos riscos. Eles afirmaram que ainda existe uma resistência das empresas em adotar novas tecnologias, o que se deve ao receio de crimes cibernéticos.  “A segurança cibernética deve ser vista como uma aliada para viabilizar a economia digital e não como uma barreira para a inovação”, afirmou Felipe Campos, CEO da Vital.

Campos também reforçou o papel estratégico da Vital como líder na construção de uma infraestrutura robusta para a economia digital. Com mais de 450 mil quilômetros de fibra óptica espalhados por todos os estados brasileiros, além de cabos submarinos e data centers, a empresa se posiciona como uma engrenagem fundamental para conectar o Brasil e viabilizar a transformação digital. “Não somos apenas fornecedores de conectividade, mas parceiros na construção de um Brasil moderno e inovador, alinhado às demandas da nova economia digital”, destacou Campos.

Cláudia Viegas ressaltou que a parceria entre o setor público e privado deve ser bem orquestrada para garantir a viabilidade econômica dos projetos. Segundo ela, o Brasil enfrenta desafios únicos devido às suas dimensões continentais, o que exige uma abordagem equilibrada: o Estado deve atuar onde é necessário, enquanto o setor privado deve liderar onde é possível. Essa dobradinha tem se mostrado eficaz ao longo da história das telecomunicações no país, especialmente em ciclos tecnológicos que demandam altos volumes de investimento.

A especialista também alertou para o risco de rupturas nas iniciativas em curso, destacando a importância de manter a continuidade dos projetos e a agilidade na liberação de recursos.

“O setor privado tem a capacidade de responder rapidamente às demandas do mercado, enquanto o Estado deve garantir que áreas menos viáveis economicamente sejam atendidas. Essa sinergia é fundamental para que o Brasil avance na agenda digital e se torne um protagonista global na economia digital”, afirmou.

Governança e regulamentação para o futuro

A discussão destacou a urgência de avançar na regulamentação de legislações estratégicas para o desenvolvimento da economia digital no Brasil, com destaque para o Redato, recentemente sancionado. Essa legislação tem o potencial de posicionar o país como um hub de armazenamento de dados para a América Latina. Além disso, a regulamentação do Redato, aliada ao debate sobre ICMS e outras políticas fiscais, é considerada um passo essencial para atrair investimentos e consolidar o Brasil como um protagonista na economia digital.

O ex-ministro reforçou o papel estratégico do Congresso Nacional na criação de um ambiente regulatório favorável para investimentos e inovação tecnológica. Ele mencionou projetos como o FUST e a regulamentação do uso de postes para telecomunicações, essenciais para fortalecer a conectividade no país. “A segurança jurídica e o estímulo aos investimentos são fundamentais para que o Brasil avance na agenda digital e se torne um player global em armazenamento de dados e inteligência artificial”, afirmou Juscelino.

Automação industrial

A digitalização industrial, liderada por iniciativas como as da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), tem mostrado resultados promissores. O primeiro laboratório de metaindústria, localizado em São Caetano, já atendeu mais de 400 empresas, ajudando-as a identificar problemas de produtividade e desenvolver soluções personalizadas. Esse trabalho é essencial para que as empresas brasileiras possam adotar tecnologias que realmente atendam às suas necessidades e aumentem sua eficiência.

Além disso, o painel destacou a importância de fortalecer a cultura de inovação no Brasil. Muitas empresas ainda veem o investimento em tecnologia como um custo elevado, preferindo copiar modelos prontos. No entanto, especialistas alertaram que essa abordagem limita a capacidade de liderança e inovação no mercado global. Países como Japão e China, que inicialmente copiaram tecnologias, só alcançaram posições de destaque ao investir em melhorias e inovação.

O Brasil já conta com recursos significativos para fomentar a inovação, como os R$ 40 bilhões da FINEP e os R$ 800 bilhões do plano Mais Produção do BNDES. No entanto, é necessário garantir que esses investimentos sejam direcionados de forma estratégica e que projetos de longo prazo não sejam interrompidos por mudanças políticas. A continuidade de iniciativas como a Embrapii e a ABDI é fundamental para consolidar o Brasil como um player global em tecnologia e inovação.

Conforme essa necessidade, o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, enfatizou que o governo tem trabalhado para ser um facilitador, garantindo que políticas públicas sejam executadas com sustentabilidade e impacto social.

Ele citou iniciativas como a liberação de recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) e os projetos oriundos do leilão do 5G, que têm como objetivo ampliar a conectividade em áreas remotas e garantir que todos os brasileiros tenham acesso à infraestrutura digital.

A conectividade, como ressaltado pelo ministro, é hoje uma necessidade básica, essencial para melhorar a qualidade de vida, aumentar a produtividade e promover o desenvolvimento econômico. Com uma dívida pública que alcança 87% do PIB e uma taxa de juros elevada, o Brasil precisa de políticas públicas bem direcionadas para superar os desafios econômicos e sociais. A digitalização de serviços públicos e a interoperabilidade de dados são apontadas como soluções para aumentar a eficiência dos gastos e promover o crescimento sustentável.

EO ministro ressaltou que o objetivo final das políticas públicas é gerar oportunidades reais e renda para a população, integrando o trabalho do governo, das agências e do setor privado:

“Então é um trabalho sendo feito a quatro mãos, com a iniciativa privada, o governo orientando, a agência reguladora fiscalizando para que a gente possa […] passar de ser o Brasil conectado para o Brasil digital fazendo sentido na vida das pessoas. É esse o nosso propósito”, concluiu.

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