A digitalização do agronegócio brasileiro está entrando em uma nova fase. Depois de anos associada principalmente ao ganho de produtividade no campo, a tecnologia passa a ocupar papel estratégico na gestão financeira, na comprovação de origem e na agenda de sustentabilidade da cadeia agroindustrial.
Esse movimento combina inteligência artificial, data analytics, sistemas de gestão, ERPs, conectividade rural, plataformas digitais e integração entre produtores, cooperativas, revendas, agroindústrias, instituições financeiras e compradores. A lógica é simples: quanto mais exigente se torna o mercado, maior a necessidade de transformar informações dispersas em inteligência para tomada de decisão.
A base para essa mudança já existe. Estudo da Embrapa sobre agricultura digital apontou que 84% dos produtores rurais entrevistados utilizavam ao menos uma tecnologia digital em seus sistemas de produção, com percepção de ganhos de produtividade. Entre os principais desafios, porém, estavam custos de máquinas, equipamentos, softwares e conectividade.
Para a pauta de sustentabilidade, a rastreabilidade ganha força. O Ministério da Agricultura e Pecuária mantém o Programa Agro Brasil + Sustentável, que busca promover conformidade da produção agropecuária com legislações nacionais e verificação de boas práticas agrícolas, possibilitando certificação em toda a cadeia produtiva.
Crédito, genética e produtividade entram na lógica da IA
Na pecuária, a inteligência artificial já começa a impactar decisões que vão além da gestão operacional. Para Iago Vieira, sócio fundador e COO da erural, um dos primeiros efeitos aparece no crédito.
“Análise de crédito com modelo de IA, treinada com dados do próprio setor, erra menos do que a análise tradicional. Errar menos significa inadimplência menor. Inadimplência menor significa crédito mais barato para quem paga bem e mais dinheiro girando na cadeia para investir em genética, pastagem e reprodução”, afirma.
Segundo ele, essa é a lógica do motor de crédito desenvolvido pela erural com apoio da EMBRAPII. A ideia é ler o risco do pecuarista a partir do histórico completo de pagamentos em leilões, dados e ciclo da fazenda, preço da arroba e outras variáveis externas, e não apenas por scores tradicionais.
A IA também pode mudar a leitura do rebanho. Vieira explica que um plantel com centenas de vacas reúne milhares de informações de genealogia, DEPs, histórico reprodutivo e desempenho que, muitas vezes, ficam dispersas em planilhas ou sistemas de gestão. Com inteligência artificial, esses dados podem ser analisados em segundos para identificar gargalos e cruzar informações com ofertas de mercado.
“O produtor passa a saber, com o contexto do plantel inteiro, quais animais fazem mais diferença para ele, e não quais animais são ‘melhores’ no sentido mais amplo”, afirma.
Essa diferença importa porque decisões de acasalamento, compra de animais ou investimento em genética podem afetar a produtividade por anos. A empresa também desenvolveu um sistema baseado em IA para ler transações do mercado e precificar animais individualmente, apoiando tanto a compra quanto a valorização do rebanho.
Informação vira conversa com o produtor
Outro avanço apontado pela erural está na forma como a informação chega ao pecuarista. Para Vieira, a IA generativa aproxima a tecnologia de quem toma a decisão no campo.
“Antes, a informação existia, mas estava presa num sistema, num relatório ou na cabeça de alguém do time. Com IA generativa, o pecuarista pergunta e a resposta vem”, diz.
No eruralpay, fornecedores conversam com Yara, agente de IA da empresa, para obter informações sobre carteira de recebíveis. Perguntas como quanto será recebido nos próximos 75 dias, qual a média histórica de fêmeas vendidas ou quem está atrasado podem ser respondidas diretamente pela ferramenta.
A mesma lógica pode ser aplicada ao plantel e ao mercado, permitindo consultar desempenho de descendentes de determinado touro, preços por raça em uma região ou indicadores de venda. “O que era relatório vira conversa, e a conversa vira decisão”, resume Vieira.
ERPs e analytics conectam campo e gestão
Se a erural mostra a aplicação da IA na pecuária, a Aliare traz o recorte de gestão integrada para fazendas, cooperativas, revendas e agroindústrias. Para Leandro Xavier, diretor executivo da vertical produtor rural da Aliare, a transformação digital no agronegócio passa pela capacidade de conectar informações que antes estavam espalhadas em diferentes sistemas, planilhas e ferramentas.
“Nesse cenário, ERPs, plataformas de BI e ferramentas de analytics atuam como uma base integrada de gestão, reunindo dados financeiros, operacionais, comerciais e produtivos em um único ambiente”, afirma.
Quando a operação passa a ser acompanhada de forma integrada, produtores, cooperativas, revendas e agroindústrias conseguem monitorar produtividade, controlar custos, analisar estoques, acompanhar margens, conceder e solicitar crédito com mais segurança e tomar decisões mais assertivas.
Para Xavier, os benefícios abrangem toda a cadeia. Diante dos desafios recentes do agronegócio brasileiro, uma gestão eficiente e confiável é fundamental para aumentar eficiência operacional, reduzir riscos e garantir a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
Rastreabilidade deixa de ser diferencial
Na pecuária, Vieira afirma que a cadeia ainda perde informações relevantes a cada troca de elo.
“O criador sabe tudo sobre o animal, o comprador recebe uma parte das informações, o transportador recebe uma GTA e o financeiro recebe um boleto para pagar. Cada troca de mão é um lugar onde o dado se perde, potenciais erros acontecem, ou simplesmente não se conversam”, afirma.
Segundo ele, uma plataforma integrada ajuda a reduzir essa perda quando a oferta nasce com a leitura completa do animal e essa mesma informação segue pela transação, pelo pagamento e pela logística. Esse modelo levou a erural a estruturar três unidades: erural, voltada à comercialização; eruralpay, para pagamentos e crédito; e eruralway, para logística de animais vivos.
O resultado é a criação de um histórico mais completo da cadeia, com informações sobre venda, compra, percurso do animal, chegada ao destino e movimentações financeiras ligadas à transação. Para o comprador, isso dá mais segurança sobre o que está adquirindo. Para o fornecedor, melhora a previsibilidade de recebimento. Para o crédito, cria uma base mais fiel sobre o comportamento de pagamento entre pecuaristas.
Vieira avalia que esse histórico importa por dois motivos. O primeiro é financeiro, já que há mercados que pagam prêmios melhores pela arroba, mas exigem controle rigoroso de origem. O segundo é regulatório e comercial: a rastreabilidade está deixando de ser diferencial para virar obrigação.
“Com o plano nacional de rastreabilidade individual até 2032, a pergunta não vai ser mais ‘quem rastreia ganha quanto?’, e sim ‘quem não rastreia vende para quem?’”, afirma.
Sustentabilidade precisa ser comprovada
A digitalização também contribui para demonstrar práticas sustentáveis. Xavier, da Aliare, afirma que registrar digitalmente cada etapa do processo produtivo cria um histórico estruturado e confiável das operações, desde a aquisição de insumos até a entrega do produto final.
“A digitalização é um dos principais pilares para fortalecer a transparência, a governança e a competitividade em toda a cadeia do agronegócio”, afirma.
Segundo ele, essa capacidade de organizar e disponibilizar informações facilita o atendimento às exigências de clientes e reguladores, amplia a confiança do mercado e pode abrir novas oportunidades para o agro brasileiro em mercados mais exigentes.
Esse ponto ganha relevância diante de exigências internacionais. A União Europeia informa que o EUDR, regulamento contra desmatamento, passa a se aplicar a grandes e médios operadores a partir de 30 de dezembro de 2026, abrangendo commodities como gado, cacau, café, óleo de palma, borracha, soja e madeira, além de produtos derivados. Empresas que colocam esses produtos no mercado europeu ou os exportam precisam demonstrar que são livres de desmatamento e produzidos conforme a legislação do país de origem.
A Comissão Europeia também destaca que a due diligence envolve coleta de informações como quantidade, fornecedor, país de produção, evidências de produção legal e geolocalização dos locais de produção.
Na prática, certificado de origem, histórico produtivo e comprovação ambiental passam a ser fatores de acesso a mercados. Não basta declarar sustentabilidade; será necessário demonstrá-la com informações consistentes.
Conectividade ainda limita a escala
Apesar do avanço da digitalização, a conectividade rural continua sendo um desafio. O Ministério da Agricultura afirma que a conectividade no campo é infraestrutura essencial para a agricultura digital. Estudo do Mapa e da Esalq indicou que o aproveitamento de 4.400 torres e antenas existentes poderia elevar a cobertura rural de 23% para 48% até 2026.
Iago Vieira reconhece que a conectividade ainda pesa, mas avalia que ela não é mais o único gargalo. Segundo ele, levantamento do Banco do Brasil de 2025 apontou que apenas um quarto das propriedades rurais tem internet em toda a área, embora cerca de 80% das fazendas já tenham algum acesso.
Para o executivo, há também um desafio cultural e educacional. A resistência à inovação aparece na frase que, segundo ele, ainda é comum no campo: “minha família faz assim há cem anos”. Essa mentalidade pode desacelerar a adoção de novas tecnologias, inclusive digitais.
Vieira compara esse ceticismo com a adoção de tecnologias já conhecidas na pecuária. Segundo ele, o Brasil insemina cerca de 25% das fêmeas de corte em idade reprodutiva, com adoção concentrada em grandes fazendas. Para ele, a resistência ao digital é parecida com a resistência que ainda limita o uso mais amplo de genética e técnicas reprodutivas.
Xavier também aponta a conectividade rural como um dos principais desafios para ampliar a adoção de tecnologias de gestão em toda a cadeia agroindustrial. Em muitas regiões, o acesso limitado à internet dificulta a coleta e a transmissão de informações em tempo real, reduzindo o potencial das soluções digitais.
Integração entre elos será decisiva
A conectividade é apenas uma parte do problema. Outro desafio está na integração entre sistemas e entre os diferentes elos da cadeia. O agronegócio envolve produtores, cooperativas, revendas, indústrias, tradings e instituições financeiras, muitas vezes operando em plataformas distintas.
Para Xavier, garantir que essas informações circulem de forma fluida e segura é essencial para aumentar a eficiência dos processos e eliminar retrabalhos. Ele também destaca a qualidade das informações como ponto crítico.
“Tão importante quanto coletar informações é garantir que elas sejam consistentes, padronizadas e atualizadas”, afirma.
Por isso, a tecnologia precisa vir acompanhada de processos bem estruturados, governança da informação e uma cultura orientada à gestão baseada em dados.
A visão dialoga com a avaliação de Vieira sobre a perda de informação a cada elo da pecuária. Quando origem, produção, logística, pagamento e sustentabilidade não conversam, a cadeia perde eficiência e confiança. Quando esses elementos são conectados, passam a apoiar crédito, precificação, gestão financeira e comprovação ambiental.
Sustentabilidade também é margem
Um dos pontos mais relevantes da entrevista da erural é a mudança de leitura sobre sustentabilidade. Para Vieira, ainda existe uma percepção equivocada de que sustentabilidade é uma pauta puramente ambiental ou ideológica.
“Sustentabilidade também é pauta de margem econômica”, afirma.
Na pecuária, rastreabilidade, sanidade, bem-estar animal e conformidade ambiental são exigências de mercados que pagam mais. Ao mesmo tempo, também podem melhorar a eficiência do projeto produtivo. O animal que emite menos por arroba, por exemplo, tende a ser também aquele que produz mais carne por hectare.
“Tecnologia na pecuária não é substituir o produtor. É dar a ele as ferramentas para produzir mais com menos, e isso impacta diretamente no retorno financeiro”, diz Vieira.
Essa visão ajuda a reposicionar a pauta. A agenda ambiental deixa de ser tratada apenas como obrigação externa e passa a ser parte da estratégia de produtividade, acesso a crédito, valorização comercial e competitividade.
Reforma Tributária também exige informações melhores
A digitalização do agro ainda ganha relevância em outro ponto: a Reforma Tributária. Xavier observa que a nova estrutura fiscal exigirá maior controle e qualidade das informações ao longo de toda a cadeia produtiva.
Para ele, empresas que já contam com processos digitalizados e sistemas integrados estarão mais preparadas para atender novas obrigações, reduzir riscos de inconsistências e garantir conformidade com as mudanças regulatórias de forma mais eficiente.
Esse ponto reforça a importância dos sistemas de gestão. No agro, a informação sustenta produtividade, sustentabilidade, crédito, tributação, contratos, logística e relação com mercados compradores.
Agro digital entra em nova etapa
O avanço da IA, dos sistemas de gestão e da rastreabilidade mostra que a transformação digital do agronegócio está deixando de ser uma agenda isolada de produtividade. Ela passa a conectar eficiência, crédito, sustentabilidade, origem, mercado externo e gestão de risco.
Para pecuaristas, a IA pode ajudar a decidir melhor sobre genética, compra, venda, crédito e produtividade. Para cooperativas, revendas e agroindústrias, ERPs, BI e analytics ajudam a integrar gestão financeira, operacional, comercial e produtiva. Para toda a cadeia, a rastreabilidade permite comprovar origem, reduzir perdas de informação e atender mercados mais exigentes.
O desafio será transformar informações dispersas em inteligência compartilhada. Isso exige conectividade, integração entre sistemas, qualidade das informações e mudança cultural. Também exige que sustentabilidade seja vista como parte da eficiência econômica, não como tema separado do negócio.
No novo agro digital, produzir mais com menos dependerá cada vez mais de saber, provar e decidir com tecnologia.