Em um setor acostumado a discutir inovação, transformação digital e novas tecnologias em ritmo acelerado, a busca por diferenciação pode levar empresas a uma armadilha: confundir novidade com resultado.
Para o campeão olímpico César Cielo, alta performance não depende necessariamente de fazer algo inédito, mas de executar melhor, com mais atenção aos detalhes e foco quando o resultado realmente está em jogo.
A provocação foi feita, durante palestra no Future Leaders Congress, em que Cielo apresentou uma filosofia de trabalho baseada em três pilares: alta performance, eficiência operacional e execução inteligente. A proposta foi transportar para o ambiente corporativo aprendizados construídos ao longo da carreira esportiva.
“Você não precisa revolucionar o mercado. Você não precisa inventar moda. Você precisa ganhar”, afirmou. De acordo com Cielo, empresas devem olhar menos para a necessidade de fazer algo completamente diferente e mais para aquilo que efetivamente produz resultado.
A lógica também questiona outra associação comum à alta performance: a ideia de que os melhores são aqueles que simplesmente fazem mais. Ao observar atletas de alto rendimento nos Estados Unidos, o nadador percebeu que eles treinavam nas mesmas condições, com os mesmos recursos e treinadores. O diferencial estava na forma como executavam.
“Não é sobre fazer diferente e não é sobre fazer a mais”, resumiu. A proposta do atleta é buscar o chamado 101%: pequenos ganhos adicionais de atenção, preparação, planejamento e execução que podem produzir diferenças relevantes no resultado.
O 1% que pode separar eficiência de desempenho
Para empresas de tecnologia e telecomunicações, a ideia ganha relevância em um contexto no qual inovação deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina competitiva. Ter acesso às mesmas tecnologias, ferramentas ou tendências não garante vantagem.
Na visão de Cielo, o diferencial pode estar justamente na capacidade de extrair mais valor dos recursos disponíveis. Ele associa esse 1% adicional a dois fatores: nível de exigência e capacidade de controlar a própria reação diante dos erros.
O exemplo vem do esporte. Ao comparar atletas de tênis, Cielo destacou que os melhores não necessariamente deixam de errar. A diferença estaria na resposta ao erro: em vez de transformar uma falha em uma avaliação negativa sobre si mesmos, procuram entender o que aconteceu e o que pode ser evitado na próxima oportunidade.
É uma mudança de abordagem que pode ser aplicada também à gestão. Em vez de “deu errado”, a pergunta passa a ser: o que aconteceu, por que aconteceu e o que precisa mudar para que não se repita?
Resultado antes da complexidade
Outro ponto central da palestra foi a necessidade de começar pelo resultado que se pretende alcançar. Antes de discutir processos, ferramentas ou pessoas, Cielo propõe uma pergunta simples: qual é o resultado que estou buscando?
A partir dessa definição, segundo o nadador, a atenção passa a ser direcionada para informações, oportunidades e decisões relacionadas à meta.
A lógica é especialmente relevante para organizações que lidam com excesso de informação. Em ambientes tecnológicos, novas plataformas, soluções de inteligência artificial, dados e possibilidades de automação surgem continuamente. Sem uma definição clara do resultado esperado, a inovação pode se transformar em dispersão.
“Alta performance não tem nada de romântico”, afirmou. Para Cielo, uma meta precisa estar conectada a uma razão concreta: entender o que se pretende ganhar com aquele resultado ajuda a transformar obstáculos e oportunidades em elementos de uma mesma estratégia.
A execução acontece quando mais importa
Planejamento e preparação são fundamentais, mas não substituem a capacidade de executar sob pressão. No esporte, uma preparação de quatro anos pode ser decidida em poucos segundos.
Já no ambiente corporativo, a escala de tempo é diferente, mas a lógica permanece: existem momentos críticos nos quais a organização precisa transformar estratégia em ação. “Não é sobre ser 100% 24 horas por dia. É sobre ganhar nos momentos que você precisa”, defendeu.
Essa perspectiva também muda a relação com a concorrência. Em vez de concentrar energia no que os outros estão fazendo, Cielo defende que cada profissional ou empresa deve executar o melhor possível dentro da própria “raia”, ou seja, na realidade de cada um. “Eu faço o meu melhor na minha raia e torço para o meu melhor ser o suficiente”, disse.
Errar faz parte da alta performance
A trajetória esportiva apresentada por Cielo também trouxe outro elemento aplicável aos negócios: consistência diante do fracasso.
O nadador contou ter acumulado mais de 3 mil quedas na água ao longo da carreira, diante de 22 medalhas conquistadas, sendo 19 em campeonatos mundiais e três em Jogos Olímpicos. A proporção ajuda a mostrar que o resultado extraordinário é construído em meio a uma quantidade muito maior de tentativas que não dão certo.
“Eu tenho mais de 3.000 quedas na água”, afirmou. “O que importa é aquele que entra.” Para ele, a constância na busca pelo melhor desempenho é o que permite que, em algum momento, o resultado apareça.
Para empresas, a mensagem é menos sobre simplesmente tolerar erros e mais sobre criar capacidade de aprendizado a partir deles. Uma organização que erra, analisa, ajusta e tenta novamente pode transformar um resultado ruim em informação para a próxima decisão.
A síntese apresentada por Cielo é uma mudança de perspectiva: alta performance não significa ser perfeito, nem vencer todas as vezes. Significa construir condições para que, quando chegar o momento decisivo, a execução esteja à altura do objetivo.
E, em um mercado em que tecnologia e inovação já fazem parte da competição cotidiana, talvez o diferencial esteja menos em encontrar sempre a próxima grande revolução e mais em fazer melhor aquilo que realmente importa.