Durante o primeiro dia do Futurecom 2026, a arena ISP Next Level reuniu três especialistas para debater o futuro dos data centers e da computação de borda no Brasil. O painel revelou que o país está em posição privilegiada para liderar a descentralização da infraestrutura digital, com 9 de cada 10 novos data centers sendo do tipo edge.
Participaram desse debate Rogerio Lopes, Diretor Sênior de Negócios da Sumitomo para a América Latina; Neilson Reis, CEO e cofundador da Click IP; e Lissandro Gerhardt, CEO da ALG Company.
Os executivos do setor de tecnologia apresentaram dados sobre a expansão da infraestrutura digital no país, abordando ainda investimentos, casos práticos e os desafios para descentralizar serviços.
Fibra óptica como base da conectividade
Abrindo o debate, Rogério Lopes afirmou que “o mundo da tecnologia não tem freio”. Segundo o executivo, o Brasil precisa acelerar investimentos em infraestrutura digital para acompanhar o ritmo global.
Lopes destacou o papel da fibra óptica nessa transformação. “A conectividade vai ser apoiada por fibra, e serviços de edge e AI dependem da fibra”, disse. O executivo explicou que as redes construídas anteriormente priorizavam outros aspectos, mas agora o foco mudou.
“Estamos falando de integridade do sinal. A rede tem que ser fotônica, ou seja, o vidro tem que ficar o mais próximo do vidro possível”, afirmou Lopes. A questão da latência baixa também foi mencionada como requisito técnico.
Primeiro data center certificado da Região Norte
Neilson Reis, CEO e cofundador da Click IP, apresentou o caso da empresa amazonense. Com 122 mil acessos residenciais, a companhia inaugurou em agosto de 2024 uma estrutura com certificação internacional.
“Fomos pioneiros nesse segmento. Lançamos o data center da Região Norte com padrão de certificação internacional”, disse Reis. A implementação reduziu a latência entre Manaus e São Paulo de 58-75 milissegundos para 41 milissegundos.
O executivo reconheceu que o processo teve desafios. “A gente experimenta um case um pouco diferente, porque enquanto o mercado ainda nem falava de datacenter, a gente já estava construindo um”, afirmou.
Reis também comentou sobre a necessidade de diferenciação no mercado. “Tem que inovar. Cada um de vocês que tem um negócio de ISP vai ter que pensar muito fora da caixa para ver se consegue se diferenciar”, disse.
Vantagens econômicas do modelo de borda
Lissandro Gerhardt, representando as empresas fornecedoras de equipamentos para a infra de tecnologia e dados, trouxe números sobre o retorno financeiro da tecnologia. A ALG Company é uma empresa gaúcha com 23 anos de atuação, que fabrica estruturas certificadas para o segmento.
O executivo apresentou dados sobre impacto econômico dos data centers. “Cada dólar investido em banda larga gera 3 a 5 dólares de crescimento do PIB. Não tem nenhuma indústria no mundo que gera tanto recurso de volta”, disse.
Gerhardt também comparou o consumo energético entre países. “Até o final deste ano, temos 4,5 a 4,7 watts por habitante”, comentou, comparando com a Irlanda, um dos principais hubs de data centers da Europa e que chega a cerca de 150 watts por habitante.
Provedores regionais como potenciais operadores
Os participantes concordaram sobre o papel dos provedores de internet no país. Com 18.808 empresas autorizadas pela Anatel, existe estrutura para descentralizar serviços.
“Por que não esses PoPs virarem edge data center para diminuir a latência e ter o conteúdo mais próximo do usuário?”, questionou Lopes. O executivo mencionou que os provedores já têm localização geográfica e conectividade estabelecidas.
Reis, porém, fez uma ressalva técnica. “Você não pode achar que aquele PoP que você tem, que é mais arrumadinho, serve para essa finalidade. Por questão de infraestrutura, você tem que criar um data center com as especificações técnicas do zero”, disse.
Questões energéticas e soberania de dados
O painel abordou dois pontos estruturais. Sobre energia, os executivos informaram que o Brasil consome 0,8% de sua capacidade em data centers, com projeção de 7-8% até 2030.
A soberania nacional também foi destacada, sendo mais um dos setores que se beneficiam dessa proximidade dos dados.
Os participantes concordaram sobre a necessidade de descentralização. “O datacenter de hiper escala não resolve. O conteúdo precisa estar perto dos clientes”, concluiu Reis, mencionando experiências durante a pandemia.
Os executivos apontaram que o país tem recursos energéticos, profissionais qualificados e rede de provedores distribuída. Segundo eles, falta acelerar investimentos e planejar ações para acompanhar a transformação digital global.
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