A imagem da ferrovia como uma indústria antiquada, feita apenas de aço e mecânica pesada, ficou no passado. Hoje, o setor vive uma revolução silenciosa, onde trens se tornaram grandes “robôs conectados” e a infraestrutura física dialoga em tempo real com sistemas digitais. Essa é a era da Ferrovia 4.0.
Para Hermano Pinto Jr.,Diretor de Relações Institucionais da Informa Markets, o cenário é de integração total. “A transformação digital e conectividade interagem pessoas, máquinas e todas as coisas conectadas, e essa tecnologia acaba permeando todos os segmentos. Independente de qual seja, todos eles estão conectados”, explica o executivo.
Principais inovações e tecnologias para negócios do setor ferroviário
As inovações tecnológicas no setor de transporte ferroviário não são apenas futurismo; elas impactam diretamente o P&L (Lucros e Perdas) das operadoras. A seguir, detalhamos como o hardware e o software se unem para otimizar ativos.
IoT e sensores
A Internet das Coisas (IoT) permite o monitoramento da integridade estrutural de trilhos e componentes críticos. Sensores instalados em eixos e rodas, combinados com o uso de drones e sensores a laser, inspecionam pontes e catenárias automaticamente.
Isso elimina a necessidade de pausas longas para inspeções manuais e reduz o erro humano. A tecnologia garante que gestores saibam exatamente o estado de cada quilômetro da malha, permitindo intervenções cirúrgicas antes que falhas ocorram.
Manutenção Preditiva com IA
O uso de Inteligência Artificial transforma a manutenção de corretiva para preditiva e prescritiva. Algoritmos analisam o desgaste de componentes e preveem o momento exato da troca, decretando o fim do downtime não planejado.
Hermano Pinto Jr. destaca o valor prático dessa coleta de dados: “Quando a gente começa a coletar dados, por exemplo, de frenagem, de desgaste dos trilhos, e de uma série de informações, a gente consegue melhorar a nossa capacidade de manutenção. A gente também consegue fazer o gerenciamento das atividades, fazendo o monitoramento e controle de segurança nas plataformas”.

BIM na gestão de ativos de infraestrutura
O Building Information Modeling (BIM) vai muito além da construção. Na operação ferroviária, ele cria uma base de dados visual e tridimensional de toda a infraestrutura física.
Isso facilita a gestão do ciclo de vida dos ativos. Engenheiros podem visualizar tubulações subterrâneas ou cabeamento de sinalização em um modelo digital, agilizando reformas e reduzindo custos operacionais de engenharia.
Saiba mais: Rastreamento no armazenamento e transporte de cargas: maximizando eficiência e segurança logística
Como os dados estão revolucionando os negócios do setor ferroviário?
Não basta capturar dados; é preciso processá-los com inteligência para gerar valor. A revolução dos dados é o cérebro que comanda a musculatura da operação ferroviária moderna.
Big Data e a tomada de decisão
Plataformas de Big Data e Data Lakes organizam o volume massivo de informações geradas pela telemetria. É aqui que a Inteligência Artificial melhora a alocação de frota em ferrovias de carga.
Cruzando dados de topografia, peso da carga e desempenho das máquinas, o sistema define qual locomotiva é ideal para cada trecho. Isso maximiza a eficiência energética e reduz o desgaste prematuro do material rodante.

O papel do 5G e Edge Computing na baixa latência
Para que veículos autônomos e sistemas de segurança funcionem, a latência (tempo de resposta) deve ser mínima. O 5G e o Edge Computing (computação de borda) são fundamentais nesse processo.
“O edge computing é a computação de borda. Então, você usa a borda da nuvem, tira do data center ‘central’ e leva para ponta (…) e eu posso processar de uma forma mais ‘lenta’ – de 1 milissegundo a 80 ms. Com isso a gente consegue fazer veículos autônomos e uma série de outras atividades com o uso dessa possibilidade de baixa latência”, detalha Hermano.
Ele ainda complementa sobre o fatiamento da rede (Network Slicing): “O metrô pode pegar aquela informação daquela rede que se torna privativa – a rede é compartilhada, mas aquela parte da rede é própria – e eu consigo fazer qualquer tipo de gestão em cima disso”.
Cibersegurança industrial
Com a convergência entre TI (Tecnologia da Informação) e OT (Tecnologia Operacional), sistemas de controle como SCADA ficam expostos. A cibersegurança industrial torna-se obrigatória para proteger a operação.
Estratégias de segmentação de rede e detecção de intrusão específicas para ferrovias garantem que a sinalização e o controle de tráfego permaneçam imunes a ataques cibernéticos, assegurando a continuidade do negócio.
Veja também: Uso de tecnologia para melhorar a mobilidade urbana: um case de SP
Automação e segurança avançada no setor ferroviário
A automação não serve apenas para reduzir custos de mão de obra, mas para aumentar a capacidade da via e a segurança operacional, permitindo mais trens no mesmo espaço físico.
A evolução do CBTC e os trens autônomos
O sistema de controle de trens CBTC (Communications-Based Train Control) é vital para metrôs modernos. Embora os custos de implementação sejam altos, os benefícios incluem a redução do headway (intervalo entre trens) com total segurança.
Isso permite transportar mais passageiros por hora sem construir novos túneis. A evolução para o ATO (Automatic Train Operation) em níveis elevados (GoA 4) já é realidade, onde trens operam sem condutor, gerenciados por algoritmos precisos.
Gêmeos Digitais (Digital Twins)
Os Gêmeos Digitais permitem simular cenários complexos virtualmente. Antes de implementar uma mudança física, como o Aumento de capacidade de carga com sistemas de acoplamento automático digital (DAC), a operação é testada no digital.
“Em função das capacidades das redes e em função dos computadores, se tornou cada vez mais uma experiência mais imersiva (…) a gente consegue virtualizar certos elementos”, afirma Hermano. Isso reduz drasticamente os riscos de investimento em novas tecnologias.

Leia mais: Inteligência Artificial e novas tecnologias na mineração
Inovações de sustentabilidade e UX no setor ferroviário
A sustentabilidade e a experiência do usuário (UX) deixaram de ser diferenciais para se tornarem exigências de mercado e fontes de nova receita.
Descarbonização
O impacto do uso de trens movidos a hidrogênio verde é decisivo na redução de emissões. Células de combustível substituem o diesel em linhas não eletrificadas, oferecendo uma operação limpa e silenciosa.
Além disso, sistemas de assistência ao condutor (DAS) orientam o maquinista sobre a velocidade ideal para economizar energia, aliando a sustentabilidade ambiental à eficiência financeira.
Smart Stations
A estação ferroviária moderna é um centro de serviços. Tecnologias de reconhecimento facial e análise de dados transformam a jornada do passageiro em oportunidades comerciais.
Hermano Pinto Jr. ilustra bem esse cenário: “As estações ferroviárias na Europa e EUA são grandes shopping centers (…) Se você consegue levar uma experiência específica da estação A à estação B (…) são formas de novas fontes de faturamento”.
Ele completa citando a personalização: “Através de uma realidade virtual, a gente jogar propagandas diretas. Isso é uma capacidade também de fazer uma espécie de novas fontes de receita”.
Confira: Mobilidade urbana inteligente: quais são os benefícios e desafios?
O futuro do transporte ferroviário no Brasil
O que pode ser feito para melhorar o sistema ferroviário no Brasil? A resposta passa pela adoção massiva dessas tecnologias. A digitalização permite otimizar a malha existente, aumentando a capacidade de carga e passageiros com menor investimento em obras civis pesadas.
O futuro reserva um cenário onde a ferrovia é totalmente integrada a outros modais, segura e preditiva. Contudo, o fator humano continua essencial.
Parafraseando Elon Musk, Hermano Pinto Jr. conclui que a inteligência artificial não está ali para substituir a inteligência humana, e sim potencializar: “Ela consegue fazer de uma forma muito mais rápida e usando muito mais informações do ambiente e transmitir essas informações para um grande computador que o ser humano vai poder interagir de uma forma muito mais fácil”.
Para ficar por dentro das inovações e tecnologias para negócios do setor ferroviário e de tudo o que acontece nas áreas de conectividade e inovação tecnológica, continue acompanhando o Futurecom Digital, o canal de conteúdo da feira Futurecom.
Leia mais
- Ranking das maiores operadoras no Brasil
- Quais inteligências artificiais existem além do ChatGPT? Confira outras opções
- Tecnologias para a mineração sustentável
- Cabos submarinos: como a internet atravessa os mares
- 7 aplicações da Inteligência Artificial na Mineração
- Quais são os tipos de inteligências artificiais? Veja características e aplicações
- O que é hiperautomação? Veja benefícios, aplicações e tendências
- O futuro do trabalho com agentes de IA
- IoT na medicina: avanços, benefícios e desafios do setor de saúde conectado
- Conectividade e Sustentabilidade: O Binômio Estratégico do Setor de Telecomunicações