A logística internacional tem sido profundamente impactada por mudanças significativas, com a atuação de múltiplos agentes globais e por um ambiente regulatório cada vez mais exigente. E a Intermodal 2026, que aconteceu entre 14 e 16 de abril, deu espaço para iniciativas inovadoras que buscam transformar o setor e enfrentar os desafios da complexidade logística.
Durante a 4ª edição do Interlog Summit, a Petrobras apresentou o programa Importa+, um sistema que coloca a governança da informação como prioridade na gestão logística. O objetivo é assegurar um fluxo de informações eficiente e sem falhas, garantindo maior agilidade e segurança na movimentação de cargas.
O programa, vencedor do Prêmio Abralog 2025, na categoria de automação e tecnologias aplicadas à logística, foi concebido como uma solução corporativa que vai além de uma ferramenta tecnológica. Ele promove previsibilidade, redução de riscos e decisões mais assertivas no processo de importação.
Regulação e desafios operacionais
O comércio exterior brasileiro vive uma transformação histórica com a implementação do Novo Processo de Importação (NPI), iniciativa do Governo Federal que promete revolucionar a rotina das empresas importadoras. O sistema substitui estruturas fragmentadas por uma lógica digital integrada, ampliando o controle e exigindo maior consistência nas informações prestadas.
Com a mudança, o tempo de liberação de mercadorias deve cair de 9 para 5 dias, uma redução de 45%, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Além de simplificar operações, o NPI tem potencial para gerar uma economia anual superior a US$ 40 bilhões para o país.
Entretanto, a adaptação ao novo modelo técnico e operacional não é simples. Um dos principais desafios é o Catálogo de Produtos, que exige das empresas a antecipação de atributos técnicos detalhados de seus itens. Apesar das dificuldades, a medida busca otimizar a fiscalização, melhorar a classificação fiscal e fortalecer o gerenciamento de riscos, promovendo maior eficiência e integração entre os órgãos envolvidos.
Para empresas de grande porte, como a Petrobras, que lida com a importação de plataformas, sondas e turbinas, o novo modelo ampliou os desafios. “Quando a gente pensa em Petrobras, a gente pensa muito em petróleo, em derivados. Mas, nesse caso, a gente está falando da logística internacional dos bens, dos materiais. Porque nós importamos desde o parafuso, desde válvulas, até a plataforma. Inconsistências cadastrais, atrasos informacionais e retrabalho podem gerar impactos diretos na produção, nos custos logísticos e na conformidade regulatória”, afirma a gerente de logística internacional e aduanaeira da Petrobras, Caroline Pacheco Preterote.
Ela explica ainda é necessário compreender as mudanças, implementar o processo e ajustar sistemas e operações. “Estamos lidando com cadeias longas, complexas, com muitos atores, enquanto somos pressionados por tempo, compliance e redução de custos. Todo mundo fala de tecnologia, automação e digitalização, mas é essencial entender onde aplicar e como essa tecnologia pode nos ajudar”, reforça ela.
O Importa+: uma resposta estratégica
Durante o painel, a Petrobras explicou que o Importa+ foi desenvolvido justamente para enfrentar todas as etapas do processo de importação em um fluxo único, rastreável e transparente.

Baseado no tripé Pessoas, Processos e Sistemas, o programa promove uma transformação completa:
- Processos: Redesenho do fluxo de importação, alinhado às exigências do NPI, com foco na antecipação de informações críticas e redução de retrabalho.
- Sistemas: Integração entre ERP, plataformas de comércio exterior, fornecedores e agentes de carga, consolidando dados em um único fluxo confiável.
- Pessoas: Capacitação contínua e deslocamento do foco operacional para a gestão por exceção e análise técnica.
O Product Leader e um dos criadores do sistema, Cleiton Oliveira dos Santos, explica que a plataforma opera como um fluxo único e integrado, conectando fornecedores internacionais, agentes de carga e áreas internas da Petrobras. “Atualmente, mais de 240 fornecedores globais estão cadastrados no sistema, que permite o envio de documentações, acompanhamento de pedidos e visibilidade em tempo real de todas as etapas do processo. Além disso, está integrado ao SAP e ao Portal Único de Comércio Exterior, garantindo comunicação fluida e dados atualizados em tempo real”, conta.
Entre os principais resultados alcançados pelo programa estão a redução de 60% no tempo de análise aduaneira e uma diminuição de 16% nos custos de armazenagem. A automação, viabilizada por tecnologias como RPA, APIs e inteligência artificial, foi essencial para eliminar retrabalhos e redundâncias, permitindo que os analistas e gestores trabalhem de forma orientada a resultados.
Cleiton reforça ainda quea visibilidade de ponta a ponta do processo é outro diferencial que possibilita gestão em tempo real e ações proativas. “Hoje, conseguimos ver todo o processo de importação de forma integrada e confiável, o que nos permite planejar melhor e agir com eficiência”, destacou um dos responsáveis pelo programa.
Essa abordagem também reduziu conflitos entre áreas e melhorou a relação com fornecedores, que agora têm acesso direto às informações e podem acompanhar o andamento de suas entregas sem depender de trocas de e-mails.
Automação e gestão por exceção
Outro pilar do sistema é a automação de tarefas operacionais. Essa função deixa a equipe disponível para atividades analíticas e estratégicas. O sistema, por sua vez, tem um visibilidade contínua do fluxo, que permite uma gestão por exceção, baseada em alertas, indicadores e desvios identificados em tempo real. Isso possibilita antecipar demandas, planejar embarques e medir a eficiência em cada etapa do processo.
“O sistema organiza o trabalho por meio de “bandejas”, onde cada ator visualiza suas tarefas, prazos e responsabilidades de forma estruturada, eliminando a dependência de e-mails e cobranças informais”, explica Cleiton.
Resultados e impactos
O especialista explica ainda que o Importa+ trouxe resultados expressivos nas operações. “A redução do tempo médio do processo de importação, diminuição de custos logísticos e ganhos com a consolidação de cargas. Além disso, houve melhorias organizacionais significativas, como maior previsibilidade, redução de conflitos entre áreas e fortalecimento das relações com fornecedores”, ressalta.
Como destacado em diversas palestras durante a Intermodal, a tecnologia sozinha não resolve os desafios da governança. É fundamental que haja a combinação de pessoas capacitadas, processos bem definidos e sistemas integrados para resultados realmente transformadores.
Diante dessa realidade, o Importa+ se destaca como um instrumento de governança, transformando informações dispersas em decisões estruturadas e previsibilidade operacional.
“Na Petrobras, estamos vivenciando uma produção de petróleo crescente e investimentos bilionários que impactam diretamente nossos processos. Nos últimos 12 meses, entregamos 16 mil itens e gerenciamos um catálogo de 13 mil materiais, que fazem parte de um universo de 800 mil itens. Esses materiais representam um valor de R$ 33 bilhões em importações, além de contratos de transporte internacional de R$ 800 milhões e armazenagem de R$ 63 milhões”, enfatiza Caroline.
E finaliza: “Para alcançar o cenário atual, foi necessário planejamento. No final de 2021, enfrentávamos um ambiente turbulento, com entrada manual de dados, retrabalho e baixa visibilidade dos processos. Era uma gestão reativa, onde os problemas só eram resolvidos após reclamações. Decidimos mudar e nos planejar para surfar a onda, em vez de apenas sobreviver. Hoje, temos um processo mais tranquilo, fruto de uma estratégia bem estruturada.”