Com a aplicação provisória do Acordo Mercosul-União Europeia desde maio deste ano, o Brasil enfrenta o desafio de alinhar suas políticas tecnológicas para competir globalmente. Para competir em igualdade de condições no mercado europeu e evitar a perda de espaço doméstico, o setor produtivo nacional corre contra o tempo para se adequar a exigências rigorosas de rastreabilidade digital e transição ecológica.

Nesse contexto, a colaboração entre órgãos governamentais e a indústria tornou-se essencial para viabilizar linhas de crédito e oferecer suporte técnico, com foco especial em micro e pequenas empresas que precisam se adaptar à nova realidade de tarifas zeradas e intensa concorrência internacional.

Setores sob pressão

Agronegócio em Alta
O setor de carnes, frutas e sucos ganha competitividade imediata com a redução de tarifas europeias, consolidando sua posição nos mercados internacionais. No entanto, para atender às exigências ambientais e garantir acesso sustentável, são necessários investimentos urgentes em sistemas de rastreabilidade digital e monitoramento via satélite, fundamentais para combater o desmatamento e assegurar conformidade com padrões europeus.

Indústria Química e de Máquinas
Este setor enfrenta o maior desafio de concorrência direta, especialmente com a entrada de produtos europeus com imposto zerado. Para se manter competitivo, é essencial acelerar a automação industrial, adotar tecnologias de menor emissão de carbono e investir em processos sustentáveis que atendam às demandas globais por produtos mais ecológicos e eficientes.

Eletroeletrônicos e Tecnologia
A eliminação progressiva de barreiras comerciais facilita a importação de componentes avançados e bens de capital da Europa, reduzindo custos e impulsionando a modernização das fábricas brasileiras. Contudo, essa abertura também aumenta a pressão sobre os fabricantes locais de produtos finais, que precisam inovar e melhorar sua competitividade para não perder espaço no mercado interno.

Pequenos Negócios (MPMEs)
As micro, pequenas e médias empresas representam o elo mais vulnerável da cadeia produtiva. Para sobreviver à nova realidade de exigências europeias, como certificações internacionais de sustentabilidade e auditorias ambientais, essas empresas dependem de subsídios governamentais, linhas de crédito verde e programas de capacitação que viabilizem sua adaptação às normas e padrões globais.

Em entrevista, Israel M. Guratti, gerente de Tecnologia e Política Industrial da ABINEE (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), analisa os caminhos para o país se posicionar como protagonista no cenário tecnológico.

Como o Brasil pode alinhar suas políticas tecnológicas para se manter competitivo frente às potências globais, especialmente no contexto do acordo Mercosul-UE?

Israel Guratti: O Acordo Mercosul-UE é uma oportunidade única para o Brasil ampliar seu acesso a mercados e integrar-se às cadeias globais de valor. No entanto, isso só será possível se combinarmos política comercial com política industrial, inovação e estímulos à pesquisa e desenvolvimento. Precisamos estabelecer prioridades em áreas estratégicas, como semicondutores, telecomunicações e tecnologias quânticas, para desenvolver competências locais e participar de forma relevante nas cadeias internacionais de valor.

Qual é o papel dos BRICS na geopolítica tecnológica e como o Brasil pode aproveitar essa parceria?

Israel Guratti: Os BRICS oferecem uma plataforma de cooperação tecnológica que pode ser decisiva para o Brasil. Países como China e Índia possuem competências complementares em áreas como semicondutores e computação quântica. Essa parceria pode resultar em projetos concretos, como redes de pesquisadores, laboratórios compartilhados e desenvolvimento de componentes e algoritmos. O mais importante é garantir que essas iniciativas gerem capacidade tecnológica e industrial local, envolvendo universidades, institutos de pesquisa e empresas brasileiras no processo de desenvolvimento.

De que forma a regionalização em telecomunicações pode fortalecer a capacidade tecnológica do Brasil?

Israel Guratti: A regionalização não deve ser vista como um fechamento de mercado, mas como uma oportunidade para fortalecer ecossistemas locais. O Brasil tem um mercado interno robusto, capaz de sustentar fornecedores, startups e centros de pesquisa que atendam demandas específicas da América Latina. Em telecomunicações, isso pode significar estimular cadeias locais em áreas como equipamentos de rede, cibersegurança e soluções para 5G. A combinação de parcerias entre grandes grupos internacionais e empresas brasileiras pode criar um ecossistema mais robusto e competitivo.

Quais são os desafios e oportunidades para o Brasil na construção de uma política tecnológica que integre inovação em semicondutores e computação quântica com acordos internacionais?

Israel Guratti: Semicondutores e computação quântica exigem investimentos elevados e ciclos longos de desenvolvimento. O principal desafio é construir uma política de longo prazo que conecte comércio exterior, ciência, tecnologia e formação de mão de obra. O Acordo Mercosul-UE pode ser uma oportunidade para atrair investimentos, integrar cadeias produtivas e estabelecer parcerias internacionais. O foco deve estar em criar competências locais e utilizar os acordos como instrumentos de desenvolvimento tecnológico e industrial, e não apenas de abertura comercial.

Qual é o caminho para o Brasil se posicionar como protagonista no cenário tecnológico global?

Israel Guratti: O Brasil precisa perseguir três objetivos simultaneamente: desenvolver capacidade industrial e tecnológica local, integrar-se às cadeias globais de valor e estabelecer parcerias de longo prazo com empresas e instituições internacionais. Essa estratégia é essencial para garantir a competitividade e a sobrevivência do país em um mercado global cada vez mais dinâmico e tecnológico.

Com uma agenda tecnológica bem estruturada, o Brasil pode transformar desafios em oportunidades e consolidar sua posição como líder em inovação e desenvolvimento tecnológico.

O gerente da ABINEE abordará esse tema no painel Geopolítica Tecnológica: Políticas para o Brasil se manter na competição, que será realizado durante o Futurecom Leaders Congress 2026, entre os dias 6 e 8 de outubro no Futurecom 2026. O evento reunirá especialistas e líderes do setor para discutir os impactos e oportunidades do acordo Mercosul-União Europeia na indústria tecnológica brasileira.