O termo “nativos digitais” foi criado por Marc Prensky, em 2001, para descrever pessoas nascidas a partir de 1980, que cresceram em contato com computadores e tecnologia.
Já os imigrantes digitais são os nascidos antes desse período, que precisaram se adaptar ao mundo digital. Para os nativos digitais, não existe separação entre o mundo online e offline.
Embora útil para refletir sobre formas de aprendizado e desafios para educadores, o conceito carece de embasamento científico, segundo Luciana Correa, do ESPM Media Lab.
Por sua vez, Alexandre Graeml, da UTFPR, destaca que existem diferentes níveis de familiaridade tecnológica entre os nativos digitais, sugerindo segmentações por faixas etárias mais curtas devido à rápida evolução das tecnologias.
Afinal, como os nativos digitais influenciam o consumo de tecnologia? Tentaremos responder esse questionamento nos tópicos a seguir. Confira!
O impacto dos nativos digitais sobre o consumo de tecnologia
O avanço das gerações conectadas mudou a forma de consumir produtos e serviços. Os nativos digitais integram a tecnologia em todas as áreas da vida, exigindo velocidade, personalização e experiências digitais fluidas.
Entre os principais impactos, destacamos:
Dispositivos e conectividade: mobilidade e 5G
Os nativos digitais consomem tecnologia de forma predominantemente móvel. Conforme aponta a pesquisa TIC Domicílios, mais de 62% dos brasileiros usa apenas o celular para acessar a internet, por exemplo.
O crescimento do 5G potencializa ainda mais esse consumo: mercados desenvolvidos, com grande cobertura e adoção dessa tecnologia, viabilizam experiências imersivas, como vídeos em altíssima qualidade, realidade aumentada (AR) e compras instantâneas.
Nos mercados emergentes, o avanço é mais gradual, mas há crescimento por meio de planos pré-pagos e soluções de internet fixa via 5G (FWA), aumentando o acesso de jovens a serviços digitais.
Era da IoT e ambientes conectados
Até o final de 2025, estima-se que haverá cerca de 27 bilhões de dispositivos IoT conectados, entre relógios inteligentes, dispositivos de casas conectadas e gadgets de saúde. Tais dados foram revelados em estudo da consultoria IoT Analytics.
Os nativos digitais, especialmente os mais jovens, utilizam esses ambientes com naturalidade, integrando diferentes dispositivos no dia a dia — desde comandos por voz até monitoramento remoto da saúde.
Esse ecossistema conectado cria novas oportunidades para empresas e desafios para a cibersegurança, já que cada dispositivo se torna um potencial ponto de vulnerabilidade.
Redes sociais, comportamento de compra e cibersegurança
Esse perfil hiperconectado consome redes sociais de forma intensa. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube dominam o tempo de tela e são usadas não apenas para entretenimento, mas também para decisões de compra.
O social commerce (compras dentro das redes sociais) deve movimentar US$ 1,2 trilhão em 2025, segundo estudo da Accenture, com destaque para categorias como vestuário, eletrônicos e cosméticos.
A jornada de compra, que começa e termina dentro das plataformas sociais, traz novos desafios para empresas, especialmente em relação à cibersegurança.
De acordo com a IBM, muitos usuários ainda mantêm hábitos inseguros, como o uso de senhas repetidas.
Ainda conforme o levantamento da empresa, o custo médio global de uma violação de dados pode superar US$ 4 milhões, e cresce o risco associado ao uso de ferramentas de inteligência artificial sem governança, conhecidas como shadow AI.
Transformação digital e inovação aberta
As empresas estão se adaptando ao comportamento dos nativos digitais por meio da transformação digital.
Relatórios da McKinsey, por exemplo, indicam que 65% das companhias do mundo já investem em inteligência artificial generativa, plataformas omnicanal e personalização baseada em dados para oferecer experiências integradas e contextualizadas.
Além disso, cresce a inovação aberta, em que marcas envolvem comunidades de nativos digitais em processos de criação e testes de produtos.
Essa co-criação gera engajamento e fidelização, especialmente quando combinada a experiências gamificadas ou assistidas por IA.
Millennials, Gen Z e Gen Alpha: diferentes perfis de nativos digitais
Segundo um estudo publicado na revista Computers in Human Behavior (Mertala et al., 2024), o conceito de nativos digitais tem se transformado com o avanço das tecnologias e a forma como diferentes gerações se relacionam com elas.
Os millennials (nascidos entre meados de 1980 e meados de 1990) vivenciaram a transição do mundo analógico para o digital, acompanhando a popularização da internet, computadores pessoais e, depois, smartphones. Esse histórico faz com que consumam tecnologia de forma funcional e adaptativa, valorizando produtos que tragam praticidade e integração, como serviços de streaming e e-commerce, mas ainda mantendo certa familiaridade com recursos offline.
A Geração Z (nascidos entre meados de 1990 a 2010) já cresceu em um cenário de conectividade constante, com redes sociais, aplicativos e dispositivos móveis integrados à rotina.
De acordo com Mertala et al. (2024), esse grupo busca experiências digitais interativas e personalizadas, influenciando diretamente setores como games, redes sociais e plataformas de conteúdo rápido, como o TikTok.
Apesar de serem vistos como naturalmente habilidosos com tecnologia, nem todos apresentam domínio técnico, o que significa que seu consumo é mais voltado para a usabilidade e a experiência, do que para aspectos técnicos ou estruturais.
Já a Geração Alpha, formada por crianças e adolescentes nascidos a partir de 2010, cresce em um ambiente de hiperconectividade, marcado por inteligência artificial, realidade aumentada e assistentes virtuais. Essa geração tende a enxergar a tecnologia como uma extensão natural do cotidiano, influenciando o consumo para produtos altamente imersivos, como dispositivos de realidade virtual, brinquedos inteligentes e soluções personalizadas baseadas em IA.
Em suma, os nativos digitais estão moldando o presente e o futuro do consumo de tecnologia. O comportamento, marcado pela conectividade constante, exige que empresas invistam em transformação digital, inovação aberta e tecnologias como 5G e IoT para oferecer experiências rápidas, personalizadas e seguras.
Além disso, a preocupação com a cibersegurança e com a saúde mental deve estar no centro das estratégias. Entender essas gerações é uma questão de sobrevivência em um mercado em que o digital e o físico já não se separam.
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