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Não gostamos de Exatas ou não nos deixaram escolher?

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Confira a reflexão de Sonia Maria Pinha de Oliveira nesse artigo da série "Mulheres na Tecnologia".

Por: Sonia Maria Pinha de Oliveira, Risk Management - Offer Control, NOKIA


Há um ano, começamos a entender a gravidade da pandemia e o Brasil começou a fechar o comércio, as escolas, cancelar os eventos. A perspectiva era de semanas, que depois se transformaram em meses e acabamos de passar de 1 ano de “novo normal”. Neste tempo, passamos por várias fases e nos adaptamos a muitas circunstâncias. Nada como uma crise para acelerar as mudanças!

Mais uma vez, estou aqui para falar sobre as mulheres e a tecnologia. E quem diria que algum dia a sigla STEM, que designa as disciplinas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, seria associada ao sexo feminino!

Lembro-me de minha infância e das várias vezes que ouvi na escola, da boca de professores, que matemática era uma matéria muito difícil. Possivelmente por ser filha de pedagoga e engenheiro não me lembro de sequer imaginar que a matemática poderia assustar alguém. Sempre achei os números seres mágicos e que sabiam traduzir o mundo em frases enxutas e eloquentes. Nem sabia o espaço privilegiado em que estava me formando como pessoa. Penso que precisamos criar este ambiente também nas escolhas, e sobretudo no ensino pré-escolar e no fundamental.  Quantos educadores nestas faixas são amantes de STEM? Talvez devêssemos começar por aí, ao invés de tentar motivar a escolha da carreira às portas do vestibular.

Com o passar dos anos, fui percebendo que algumas portas não se abriam tão facilmente e existia um viés de gênero para algumas profissões. Assim como “meninas vestem rosa e meninos vestem azul”, meninas estudavam Humanas e meninos estudavam Exatas. Biológicas ficava para ambos os sexos – claro!  –, desde que Medicina ficasse para os meninos e Enfermagem para meninas! Que bom que o mundo não para de mudar! A quantidade de garotas nas listas de aprovados nas faculdades de Medicina e Engenharia mostra que talvez não fosse uma questão de falta de incentivo – talvez, antes de dizermos que as mulheres não se interessam por Tecnologia, possamos analisar desde quando as mulheres têm direito ou permissão a essa escolha.

Já ouvi várias vezes que a mulher brasileira conquistou seu direito a voto em 1932. Só que esqueceram de me contar que o Código Eleitoral da época exigia uma condição adicional: que seus maridos as autorizassem. Somente em 1946 a obrigatoriedade do voto foi estendida às mulheres e canceladas todas as demais restrições, neste país.

Isso me lembrou as tantas vezes que me pediam para escolher algo sobre a decoração do ambiente de trabalho – era quase unanimidade que eu era indicada para a tarefa. Já não era tão óbvio indicar uma mulher quando a tarefa era chefiar um setor – haja vista a proporção de cargos de liderança feminina ainda hoje nos vários segmentos corporativos.

Mas, se você se surpreendeu da mulher ter que pedir autorização ao marido para votar em pleno pós-Guerra, a internet me ensinou mais um pouco de nossa triste história: que lhe parece que até 1962, as mulheres casadas só podiam trabalhar fora se o marido permitisse e tal autorização poderia ser revogada a qualquer momento? E não para por aí. Até então, as mulheres casadas também eram impedidas de abrir conta no banco, ter estabelecimento comercial ou mesmo viajar sem a autorização dos maridos.

Foi só a partir da Constituição de 1988 que ficou expressa a igualdade de direitos e deveres entre mulheres e homens - exatamente 100 anos após a abolição da escravatura. Coincidência emblemática!

E para não dizer que isto é tudo é passado, foi somente neste século, com o Código Civil de 2002 que finalmente os direitos civis foram equiparados e as empresas foram obrigadas a equiparar benefícios (a partir de quando eu finalmente pude ter direito a incluir meu marido como meu dependente no plano de saúde – após de mais de 10 anos já empregada  sob regime CLT enquanto meus colegas já gozavam de tal direito desde sempre. Vocês não imaginam a surpresa do Diretor da empresa quando o questionei sobre o assunto – quando um problema está invisível, não há como resolvê-lo! É preciso jogar luz, provocar o incômodo do olhar e da consciência para que surjam atitudes e soluções!).

Portanto, faz muito pouco tempo que a mulher se vê oficialmente equiparada por lei. Agora que temos a lei, precisamos garantir o fato. A Lei Áurea foi assinada em 1888 e até hoje sentimos os efeitos da escravidão africana. 100 anos depois foi a vez das mulheres - temos agora a permissão legal para evoluir! Por quantos anos ainda teremos o efeito da nefasta sociedade patriarcal que nos submeteu impiedosamente? Minha filha nasceu após o Código Civil de 2002! Isto me é um grande alento. Porém, não nos enganemos, as correntes da submissão feminina foram cortadas apenas no papel. Na mente das pessoas leva um pouco mais de tempo.

Outro dia (ainda antes da pandemia), fui sair do elevador e me neguei a ter prioridade. O colega que estava tentando prestar esta “gentileza” se irritou e passou de gentil a insultante. Disse, indignado, que as mulheres já não permitiam que se praticassem gentilezas. Saiu em tom de bronca, bufando. Assim como hoje em dia, é politicamente incorreto usar a palavra “denegrir”, gostaria de viver para testemunhar o dia que caíssem em desuso essas “gentilezas”  medievais , sem sentido no contexto atual, que ao meu ver, apenas propagam a ideia inconsciente de que a mulher é um ser inferior, fraco e que precisa de proteção e privilégios para sobreviver. Falando num contexto mais prático, será que é coincidência que no trânsito, as mulheres são as que menos permitem passagem, quando alguém está tentando entrar numa via mais movimentada? Tudo têm consequências. Precisamos sair do automático! Já ensinei meus filhos, que tanto homens quanto mulheres merecem receber passagem. Eis uma  contribuição minha para a sociedade!

E, antes que me xinguem indevidamente, gostaria de informar que o contrário de machismo não é feminismo e sim femismo. O feminismo quer a igualdade entre sexos enquanto os demais conceitos buscam a superioridade de um sobre o outro.

Aquele que não aceita o talento alheio possivelmente desconfia do próprio. As novas gerações não estão livres de todo preconceito, mas chegam à maturidade com uma cabeça mais aberta e disposta a dar mais espaço a todos.

Eu vislumbro um futuro muito melhor, com mais liberdade de escolha e menos barreiras. Muito bom reconhecer que a luta de tantas mulheres fantásticas, como Marie Curie, Chiquinha Gonzaga, Simone de Beauvoir, Kathrine Switzer, Sóror Juana Inés de la Cruz, Virginia Johnson e Katherine Johnson  - mesmo sem direitos assegurados, conquistaram espaços incríveis e nos inspiraram a chegar aqui. E vejo com muita alegria que não somente as garotas, mas também os rapazes desta nova juventude, vestem esta camisa. São muitos os que apoiam as causas feministas e se opõem às práticas machistas.

Tudo vai melhorar. A pandemia vai passar, a vacina vai chegar, as novas gerações viverão mais em harmonia e a tecnologia poderá ser pintada de vários tons, não exclusivamente azul! 

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