A rastreabilidade digital se firmou como um alicerce da transformação tecnológica no campo. Isso porque, com exportações robustas, consumidores mais atentos e regulações internacionais cada vez mais exigentes, o uso de blockchain no agronegócio age como uma resposta eficiente para elevar padrões de controle, autenticidade e segurança alimentar em toda a cadeia agroalimentar.

Para entender como essa inovação está moldando o presente e o futuro do setor, entrevistamos Aline Oliveira, especialista em Gestão do Agronegócio, mestre em Ciências da Comunicação e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ela explicou como o blockchain está sendo incorporado ao campo e por que a tecnologia se tornou peça-chave para competitividade global e transparência no agro. Confira o que ele falou e entenda mais nos próximos parágrafos!

Blockchain: um livro-razão digital para o campo

Aline começa reforçando que é importante compreender a essência do blockchain. “Trata-se de um banco de dados descentralizado, resistente a adulterações, imutável e altamente rastreável”, diz.

Conforme a especialista, os blocos são encadeados de forma cronológica e protegidos por criptografia, criando um livro-razão digital compartilhado. Ela conta que as primeiras aplicações comerciais surgiram em 2016, nos Estados Unidos, e se espalharam rapidamente.

A China adotou a tecnologia em 2017, e organizações como a WWF passaram a utilizá-la para rastrear cadeias sensíveis, como a do atum.

No agronegócio, esse modelo permite acompanhar cada etapa: compra de sementes, manejo do solo, operações no campo, processamento, transporte e chegada ao varejo.

Para Aline, a grande mudança está na integridade dos registros: “Cada etapa gera um dado inviolável, acessível em tempo real e impossível de ser alterado unilateralmente. Isso fortalece a segurança alimentar e evita fraudes sobre origem, datas ou uso de insumos”.

De acordo com a professora, os produtos rastreados por blockchain chegam ao consumidor com identificadores digitais, como QR Codes, capazes de revelar toda a história do alimento.

Setores que lideram a adoção no Brasil

Aline aponta que, no Brasil, o avanço é puxado pelos setores agrícola e pecuário, especialmente em cadeias voltadas à exportação agrícola.

Ela conta que, entre janeiro e junho de 2025, as exportações de alimentos somaram US$ 14,6 bilhões, com destaque para soja, açúcar, carne bovina, café e celulose. Além disso, nichos como óleo de amendoim e pimenta-do-reino também cresceram.

A especialista ainda explica que esse desempenho indica que mercados exigentes pedem rastreabilidade digital, sustentabilidade e comprovação de origem, e, o blockchain é capaz de atender essas demandas.

Além de reduzir riscos, a tecnologia facilita auditorias e comprovações de compliance agroindustrial.

Conforme Aline, na pecuária, há transparência sobre local de criação, data de abate e transporte. No café, operações vão do preparo do solo ao varejo, reforçando a reputação de marcas e cooperativas.

Certificação agrícola mais confiável

Em cadeias dominadas por certificações e selos de qualidade, o blockchain funciona como ferramenta de integridade. “Como o sistema é criptografado e distribuído, não é possível alterar dados sem o consenso da rede”, explica Aline.

Isso reduz a falsificação de certificados e manipulação de documentos, problemas frequentes no comércio internacional. Cada mudança de etapa gera um novo bloco com data e hora, criando um histórico verificável.

Certificados digitais, selos eletrônicos e documentos de embarque conectados ao blockchain dificultam desvios e fraudes, ampliando a confiabilidade da certificação agrícola.

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Linha do tempo contra fraudes

A rastreabilidade por blockchain funciona como uma linha do tempo detalhada. Saída da fazenda, chegada ao entreposto, processamento, transporte refrigerado e entrada no centro de distribuição. Tudo vira dado permanente.

Qualquer tentativa de adulteração – troca de origem, mudança de datas ou inserção de lotes irregulares – deixa um rastro detectável.

Para Aline, essa característica é decisiva: “Fraudes como substituição de produtos, reetiquetagem de validade e desvio de cargas ficam muito mais difíceis”.

Quando combinada a sensores IoT que monitoram temperatura e umidade, a solução ganha precisão.

Uma variação inadequada de temperatura, por exemplo, passa a compor o histórico oficial do alimento, permitindo bloqueio preventivo antes de chegar ao consumidor.

Ganhos diretos para a segurança alimentar

Com registros imutáveis, incidentes podem ser rastreados em minutos. Em casos de contaminação, é possível identificar lote, origem, armazenamento e trajetos sem depender de documentos dispersos. Auditorias se tornam mais robustas e menos vulneráveis a erros.

“Há também um efeito preventivo”, observa Aline. “Saber que tudo será registrado desencoraja práticas de risco.” Isso fortalece programas internos de qualidade e reduz burocracias.

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Blockchain no controle de qualidade e monitoramento sanitário

No campo, o blockchain está sendo integrado a ERPs rurais, aplicativos de gestão e plataformas de bem-estar animal. O produtor registra práticas diárias como vacinação, manejo e colheita, que são ancoradas na rede com integridade garantida.

Brincos eletrônicos, colares inteligentes, chips e até mesmo a biometria bovina já equipam animais em projetos piloto, registrando dados sanitários e movimentações.

Na agricultura, sensores de solo, estações meteorológicas e imagens de satélite enriquecem o conjunto de informações.

Essa convergência cria uma base sólida para certificações sanitárias e padrões de produção responsável, ampliando transparência e tecnologia no campo.

Exigências internacionais e compliance agroindustrial

Embora muitos regulamentos não mencionem explicitamente o blockchain, as exigências já apontam para ele. A União Europeia, por exemplo, reforça ações de rastreamento por meio da estratégia “Farm to Fork”.

Importadores europeus e grandes redes varejistas exigem rastreabilidade detalhada para carnes, café, cacau, pescado e produtos florestais.

“O que se pede na prática é justamente o que o blockchain oferece: prova de origem, controle de risco e rastreabilidade quase em tempo real”, diz a especialista.

Passaporte ambiental e valorização de produtos sustentáveis

A rastreabilidade digital permite agregar dados ambientais aos alimentos. Áreas sem desmatamento, práticas regenerativas, bem-estar animal e emissões passam a acompanhar o produto.

“A transparência se torna diferencial competitivo, especialmente em nichos premium”, afirma Aline.

Em regiões sensíveis como a Amazônia, pilotos com blockchain têm sido utilizados para comprovar regularidade ambiental, fortalecendo políticas de compra e atraindo investidores atentos à pauta ESG.

Assim, a tecnologia gera valor em toda a cadeia agroalimentar e amplia a transparência no agro.

Barreiras e soluções para pequenos e médios produtores

Entre os obstáculos, Aline destaca conectividade limitada, custos de implantação e necessidade de capacitação. Ela explica que os modelos colaborativos, via cooperativas, associações ou empresas âncora, têm se mostrado alternativas viáveis.

Aplicativos simples, dispositivos IoT acessíveis e integração com sistemas já utilizados reduzem barreiras.

Mas políticas públicas de conectividade rural e crédito direcionado seguem essenciais para democratizar a inovação rural.

O consumidor como agente ativo

Para o consumidor, o ganho é direto: acesso à história completa do alimento. Os QR Codes permitem visualizar origem geográfica, manejo, datas e trajetória logística. Além disso, informações ambientais e sociais começam a aparecer em aplicativos e embalagens.

Conforme Aline, entre os dados mais comuns estão:

  • Origem completa;
  • Lote, produção e processamento;
  • Qualidade e controle de temperatura;
  • Certificações socioambientais;
  • Pegada de carbono estimada.

“Com isso, o consumidor deixa de ser passivo. Ele passa a escolher marcas e cadeias alinhadas aos seus valores”, conclui a professora.

Na interseção entre rastreabilidade digital, tecnologia no campo e sustentabilidade, o blockchain consolida seu papel como ferramenta estratégica.

O agronegócio brasileiro, cada vez mais integrado a mercados globais, encontra na inovação uma ponte para ganhar eficiência, confiança e competitividade, da fazenda ao prato.